Conto – Franco Atirador, por Tibor Moricz

Não era mais que um pontinho lá no horizonte. Vinha em avanço gradual. Cocei o bigode, soltei um bocejo e rearrumei as pernas, descruzando-as e voltando a cruzá-las noutra posição.

Minhas botas estavam sujas de terra. Um rasgo longitudinal numa delas deixava à mostra um pedaço da meia. Olhei para o céu e perscrutei as nuvens e através delas… Como se pudesse. Uma brisa suave soprava. Diante de mim o vale se descortinava em meio a ravinas e pouca vegetação. O pó na língua formava torrões que eu cuspia em pequenos intervalos.

Pensar em minha mãe foi simultâneo. Era obrigatório pensar nela. Todos os dias e noites, sob o sol, sob a chuva ou sob o fogo inimigo. Era uma figura renitente que, teimosa, não me abandonava. Mesmo que a tivesse abandonado há tempos.

Minha mãe… Senhora imponente em sua suposta majestade. Isso. Toda mãe se sente majestade. Seu reino… O lar, seus súditos… Os filhos. Era quase impossível não sentir o travo amargo na garganta. Quando fora? Quando? Quando foi que lhe gritei na cara para que me deixasse seguir minha própria vida? Quando foi que, em meio a impropérios – que hoje lamento não terem sido mais virulentos -, enfiei-lhe o dedo na cara e lhe disse, em alto e bom som, que eu era mais e melhor do que ela podia supor?

É… Quando?

Tem também o quando ela reunia familiares e amigos para me fazer uma festa de aniversário surpresa… Mas esses eventos eu preferia esquecer. Ocorriam sazonalmente, uma vez ao ano, discretamente camuflados entre um dia e outro.

Balancei a cabeça e estiquei o olhar mais uma vez. O pontinho ao longe já se tornara distinguível. Era uma pessoa – claro que sim, sabia desde o início –, homem ou mulher, caminhava de maneira cautelosa. Procurava abrigo entre as rochas. Carregava petrechos que o faziam avançar com dificuldade. O que um idiota como esse estaria fazendo ali, sozinho? Não era dos nossos. Posicionei o fuzil fazendo mira. A distância era ainda grande para arriscar.

Lá vinha a minha mãe de novo. O olhar arguto me atravessando a carne como uma faca afiada. Passinhos sempre curtos, mas fortes. Cada passada forte como se quisesse fazer o mundo entender que estava ali, poderosa como nunca.

E estava.

Sempre acima de nós. Mesmo sendo de estatura média, mesmo tendo que erguer o olhar para nos encarar. Eu e meu irmão, que já não era, mas um dia foi. Não a sete palmos de fundura, que estaria muito bom. Mas espalhado em fragmentos ensanguentados. Um obus dentro da trincheira. Sem tempo para fugir. Nem para pensar. Nem para um “ai”.

Era ela a responsável… A maldita.

Claro que sim. Quem mais poderia? Ela iniciou a guerra, nos alistou, reuniu o inimigo, indicou a trincheira, fabricou o obus, deu as coordenadas, disparou e gargalhou a morte do próprio filho… Maldita.

Descruzei as pernas e bati com as botas no chão, fazendo levantar uma pequena nuvem de poeira. Coloquei-me de joelhos e projetei o corpo para frente, procurando o defunto que caminhava no vale.

Lá estava ele. Era homem. Talvez uns vinte anos de idade. Três a menos que eu. Aparelhado. Uma mochila larga às costas. Um fuzil pendurado no ombro, olhar perdido no caminho.

O destino o aguardava nas alturas. Sentei sobre os calcanhares, abri o cantil e bebi um gole de água. E a maldita voltou a ocupar minhas lembranças. Como no dia em que enfiou o cabo do guarda-chuva na garganta do senhor Clinton. Queria me defender, a idiota. Acabou por me colocar em maus lençóis. Ou quando teimou que Susan não era mulher para mim. E não era mesmo, mas ela jamais poderia ter se metido nisso. Ou quando disse a Joe, meu irmão despedaçado, que jamais permitiria que ele se alistasse no exército. Que era o caçula, o desprotegido, o incauto, aquele que deveria ser um modelo dentro de casa. Que não deveria seguir meus maus exemplos.

Claro que ele disse a ela pra não se meter.

E da vez quando papai, completamente bêbado, começou a quebrar os móveis da sala. Mamãe, de certa forma, o ajudou. Pegou um vaso e o colocou pra dormir em meio aos cacos. Fora horrível, de uma agressividade desnecessária.

Eu e Jorge assistimos a tudo, encolhidos num canto. Cabelos desgrenhados, marcas pelo corpo, sangue escapando dos lábios. Atônitos após a surra que levamos dele, atônitos pela reação de mamãe. Atônitos por termos sido tão veementemente defendidos sem que pudéssemos demonstrar nossa força.

Tudo bem… Éramos crianças. Mas crianças com opinião própria. Tínhamos braços e pernas. Tínhamos cérebro. Tínhamos vontade.

“Vão morrer, os dois!… Vão morrer!”, gritou mamãe quando fomos chamados ao front. Os perdigotos espirraram em nossas faces. O rosto dela, sempre tão forte, tão vigoroso, desmoronava diante de nós. Vimos o veneno escorrer.

Ou teria sido medo?

Nunca tivemos chances de voltar a vê-la. Ela morreu naquele mesmo verão. Falência múltipla dos órgãos. Metástase. Câncer de pâncreas não detectado até que fosse tarde demais. Morreu antes de Jorge. Morreu depois de papai.

Jamais abri as suas cartas. Para quê? Para ter que enfrentar uma sabedoria sempre indiscutível? Para ter que engolir sem chances de resposta as súplicas, as recomendações?

Respirei fundo e elevei os pensamentos a Joe. Onde quer que estivesse. Talvez no inferno. Claro que mamãe estaria lá, se assim fosse. Enfiando o cabo do guarda-chuva na garganta do diabo e colocando Joe em ainda piores lençóis.

Aprumei o corpo. Recolhi duas lágrimas teimosas e posicionei o fuzil. Mamãe… Ainda tínhamos assuntos a acertar. Conversas a tecer. Posições a discutir. Projetei o corpo para frente e procurei o alvo, arma engatilhada.

Lá estava ele.

Agachado próximo a um arbusto. Ajoelhado. A arma empunhada, o cano erguido. Quase um reflexo meu. Um espelho bizarro posicionado no vale, refletindo mais que a minha pessoa… Quase a minha alma.

Afrouxei o aperto no gatilho e sorri com alguma ansiedade. Pensei em Jorge e em mamãe. Dei uma risadinha nervosa. Vamos aproveitar a chance, certo? É isso aí. Vamos aproveitar…

O estampido ecoou pelo vale, desaparecendo ao longe.

Mantive a posição. Arma nas mãos, cano apontado para baixo, dedo trêmulo no gatilho. Nos olhos a opacidade. Antes de cair do penhasco ainda consegui concatenar um breve pensamento. Alguma coisa a ver com mamãe.

Algo indistinto, como um vago sorriso de boas vindas.

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2 Respostas para Conto – Franco Atirador, por Tibor Moricz

  1. Ótimo conto, desses que nos faz pensar na nossa própria vida.
    Só não entendi o motivo desse conto aqui, se ele não é de FC.
    Mas sem problemas, ele vale a pena ser lido pro todos.

  2. Achei muito bom esse conto,vou publicá-lo no meu blog,claro com os devidos direitos a o somnium e ao Tibor Moricz.

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