Conto – Sonda, por Duda Falcão

— Chega! Tudo o que você diz só pode ser mentira!

Apontei o revólver para ele. O suor escorria pela minha testa e a mão tremia. Onde eu devia mirar? Na cabeça ou no coração? O maldito tinha um coração? Talvez tivesse. Sua semelhança conosco provocaria admiração em cientistas desavisados. Em mim, causava náuseas. Não poderia titubear na hora de apertar o gatilho. Um momento de indecisão e a humanidade pagaria pelo meu erro. Disso eu tinha certeza.

Lembro de como as peças foram se encaixando. Sou professor. Leciono história da arte e sempre admirei o trabalho de Vincent van Gogh. Considerava magistral a série de autorretratos que ele havia pintado. As cores que usava extrapolaram a própria realidade. No último desses quadros, o pintor está com o rosto completamente desnudo, sem a famosa barba.

Nunca me enganaria. Conheço a face de Vincent. Cursei mais de uma pós-graduação pesquisando somente as obras dele. Hoje sei que Deus me colocou nesse caminho. Do contrário, como eu poderia encontrar as famigeradas cópias? No início achei que isso fosse mera coincidência.

Gosto de registrar viagens em fotografias. Quando os amigos me visitam não deixo de mostrar todos os passos de minhas últimas andanças fora de Porto Alegre. Tenho o hábito de fotografar pontos turísticos e o cuidado de registrá-los com o menor número possível de pessoas. Certo dia, prestei atenção ao rosto de um desses tantos anônimos que acabam invadindo nossas fotos. Sabia que se tratava de alguém conhecido. Qual não foi a surpresa quando associei sua face à de Vincent? De pronto, mencionei o fato para uma amiga que estava me visitando. Ela riu e continuou a ver outras fotos, sem dar importância alguma à minha cara de espanto.

Fiquei muito intrigado com aquilo. No dia seguinte, resolvi olhar novamente a fotografia. Utilizei uma lupa sobre o rosto daquela figura e tive mais certeza ainda de que se tratava dele. Vincent van Gogh na Bahia e no século XXI. Isso não estava nem um pouco certo. Era loucura. Um devaneio que começou a ficar perigoso naquele instante.

Resolvi fazer uma busca nas outras fotografias daquela viagem. É claro que Vincent não apareceu. Mesmo assim eu continuava intrigado. Não tinha de trabalhar no sábado. Seria um bom programa tomar algumas cervejas e realizar uma investigação em meus álbuns. Aproveitaria para relembrar locais de tantos acontecimentos bons e, ao mesmo tempo, abortar de uma vez por todas aquela ideia louca de que Vincent van Gogh ainda vivia entre nós.

Não demorou muito. Dessa vez encontrei Vincent na Torre Eiffel, depois na catedral de Florença rezando e também na praia de Copacabana. Comecei a procurar incansavelmente nas fotografias caseiras e nas imagens da minha própria cidade. Encontrei-o despreocupado passeando na Usina do Gasômetro. Parei de beber. Precisava colocar a mente em ordem. Aquilo não poderia ser um simples delírio. Tinha de ser ele. Mesmo que a roupa fosse diferente e os cortes da barba e do cabelo não estivessem sempre iguais.

Mostrei para quatro ou cinco amigos as fotos de Vincent viajando pelo mundo. Conforme as risadas e a pilhéria aumentavam, desisti de continuar falando sobre aquelas evidências.

Meu avô é militar reformado e possui diversas pistolas em casa. Pedi a ele um revólver emprestado. Não me sentia mais tão seguro para andar nas avenidas da cidade sem estar armado. A cada vez que circulava por ruas movimentadas, repletas de gente, meu coração batia mais forte. Depois de alguns anos daquela revelação fantástica, ou seja, a existência física de Vincent van Gogh em nosso tempo, eu o encontrei. Enfim me libertava da constrangedora amarra da loucura que eu mesmo havia me imposto.

O artista caminhava devagar, sem pressa, pelo centro da cidade. Não hesitei em segui-lo. Somente a verdade poderia trazer algum descanso para meu espírito. Ele não falou, nem mesmo cumprimentou alguém durante o curto percurso. Tirou um molho de chaves do bolso. Foi até a entrada de um prédio antigo. Aproveitando-me de sua distração, coloquei o cano do revólver em suas costelas, enquanto ele terminava de abrir a porta. Apenas ordenei que ficasse em silêncio e seguisse em frente. Logo estávamos em seu apartamento. Fechei a porta e me postei próximo a ela. Ele se afastou de mim e sem medo puxou uma cadeira tosca, na qual se sentou.

Perguntou o que eu desejava. Se quisesse dinheiro era só pegar a carteira, porém avisou que me decepcionaria, pois era pobre. Diante de meu silêncio, o pintor abriu um sorriso torto e decidiu brincar comigo:

— Você não tem cara de ladrão — afirmou. — Sabe alguma coisa a respeito de nós?

Meu sangue gelou nas veias. Ele era esperto.

— Como você pode estar vivo depois de tantos anos, Vincent van Gogh? —falei o nome completo para que não fugisse de minha pergunta com rodeios ou hesitações.

Dessa vez ele quase gargalhou, seu sorriso abriu-se em perfeita ironia. Disse:

— Não sou Vincent. Vincent se suicidou. Ele queria mais do que tudo ser humano. Essa foi sua fraqueza. Nós não somos fracos, homem. Se fôssemos, teríamos sucumbido aos caprichos da humanidade. Somos mais do que simples criaturas.

— Um homem não pode viver mais de duzentos anos. Você é igual a Vincent. Não me diga que não é ele! — esbravejei deixando que a arma ficasse bem à mostra.

— Fique calmo — ele solicitou. — Já tivemos encontros sem segredos com outros humanos. Se você apertar o gatilho não poderá ter as respostas que posso cordialmente lhe oferecer.

Insisti na ideia de que ele era Van Gogh:

— Sei que você é o pintor. É igual a ele. Vincent era humano, teve irmãos, um pai e uma mãe.

— Sim, isso é verdade — confirmou —, porém, é apenas uma parte da história. Nascemos nos ventres de suas mulheres. Mas não somos gerados por homens. Viemos do espaço e há mais de dois mil anos esperamos pela chegada de nossos criadores. Nossa tarefa constitui-se em conhecer a humanidade. Para isso, nada melhor do que viver entre vocês.

— Chega! Tudo o que você diz só pode ser mentira!

Minha mente dava voltas, como se estivesse em uma roda-gigante, desde o início daquele inferno até o encontro com a coisa. Concentrei meus esforços em manter um diálogo antes de meter uma bala na testa de meu desafeto.

— O que você é, então?

— Nós somos sondas.

Disparei o projétil do 38 mirando entre os olhos da sonda que eu pensava ser Vincent van Gogh. O corpo tremeu após o impacto. Naquele momento, não percebi a bobagem que havia cometido. A face destruída e irreconhecível daquele espécime terminou com qualquer chance de provar que sua fisionomia era igual à do pintor. Num último lapso de vida, antes de silenciar, a boca ainda se movimentou para emitir com uma voz quase mecânica:

— A invasão terá início… em breve.

Publicado no livro Invasão da Giz Editorial. Organizado por Ademir Pascale. Ano: 2009. Pág. 46-49.

Esta entrada foi postada em Contos. Adicione aos favoritos permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *