Conto – Uma sepultura solitária sobre a colina, por Cesar Alcazar

Anrath puxou com violência as rédeas do cavalo. Um grito lancinante quebrara o silêncio da madrugada e assustara o animal. Após conseguir dominar novamente sua montaria, o guerreiro perscrutou a escuridão na tentativa de encontrar a origem do ruído. Não lhe agradava nem um pouco viajar à noite, no entanto, tinha pressa de se juntar aos homens de Niall mac Eochada, rei de Ulaid. Niall estava reunindo tropas para saquear Dublin, e o pagamento não era de se ignorar.

O cavalo agitou-se outra vez. Não muito longe dali, Anrath avistou uma figura sombria correndo entre as árvores. Latidos e rosnados podiam ser ouvidos claramente. Instantes depois, o guerreiro viu que se tratava de um homem sendo perseguido por lobos. As ferozes criaturas o alcançariam a qualquer momento.

Com um rápido movimento, a espada do mercenário de Connacht rasgou o ar gélido do começo do inverno ao ser retirada da bainha. Ele esporeou o cavalo, que avançou a contragosto. Nesse instante, os lobos pularam sobre sua presa, que para espanto de Anrath, era um homem bastante velho.

Percebendo que o cavalo não se aproximaria mais, o guerreiro saltou para o solo, espada em punho. Os animais logo o notaram e investiram contra ele. Ávidos caninos afiados tentavam atingir sua carne. Desferindo golpes certeiros, Anrath eliminou duas feras. O resto da alcatéia se dividiu, três continuaram atacando a vítima original e outros três enfrentavam o mercenário. No chão, o pobre velho lutava desesperadamente pela própria vida.

O maior dos lobos cravou os dentes no braço de Anrath, por sorte protegido pela malha de metal. O animal fez com que ele rodopiasse e perdesse o equilíbrio, tamanha sua violência. Se esforçando para permanecer de pé, Anrath livrou-se do lobo, que arremeteu mais uma vez. Um golpe instintivo interrompeu o ataque do animal, cuja cabeça revolveu no ar antes de tocar o chão.

Ao perceberem a derrota do líder do bando, o restante dos lobos recuou. Eles olhavam o mercenário com a cabeça baixa, rosnando ameaçadoramente. Anrath, por sua vez, encarou os animais direto nos olhos, sem medo. Ele alçou a espada, que refletiu os olhos das bestas. Estava preparado para mais um combate. Entretanto, os lobos retrocederam alguns passos, para depois sumirem entre as árvores.

O homem velho continuava caído e gemeu de dor. Suas vestes estavam cobertas de sangue. Fora uma luta atroz. Ele ergueu a cabeça e viu que o viajante corria para ajudá-lo. O guerreiro de longos cabelos negros e semblante melancólico ajoelhou-se diante do velho, que falou entre soluços:

– Obrigado, amigo…

Anrath examinou os ferimentos do homem. A perna estava dilacerada na altura da coxa e sangrava em abundância, entre outras escoriações menores. Não havia como salvá-lo, pois a artéria havia sido rompida.

– Não me agradeça – o mercenário falou desolado enquanto amarrava um torniquete acima do ferimento para estancar o sangue – Não cheguei a tempo.

– Sei que meu estado é grave, não se preocupe. Pelo menos ainda viverei o suficiente. Devo isso a você. Meu nome é Fearghal mac Artie.

– Anrath, de Connacht.

– Pois eu agradeço, Anrath. Não fosse por você, estes lobos teriam me jantado!

– Por que um homem da sua idade está andando sozinho à noite por essas florestas?

Os olhos de Fearghal se encheram de lágrimas e ele respondeu com dificuldade em uma mistura de dor e emoção:

– Eu queria ver a batalha…

– Batalha? Não há nenhuma guerra acontecendo por essas partes. Pelo menos que eu saiba.

– Eu me refiro à Batalha de Tara, meu amigo.

– Mas isso foi há muito tempo! – o mercenário exclamou confuso.

– Sim. Mais de quarenta primaveras.

– Então, o quê você esperava ver?

Fearghal fitou o mercenário, seu rosto tomado por uma expressão nostálgica. Então, vagarosamente, ele começou a explicar:

– Nossos antepassados pagãos diziam que durante o Samhain a fronteira entre o mundo dos vivos e o Outro Mundo tornava-se muito tênue, fina. Com a chegada do inverno, animais e plantas morriam em abundância, e isso permitia aos mortos andar sobre a terra novamente. Nunca quis acreditar nisso, pois sou um cristão.

O velho Fearghal fez uma pausa e o vento soprou uma triste melodia. A névoa noturna parecia agora mais espessa. Anrath terminou de amarrar os ferimentos do moribundo. Este, suspirando profundamente, continuou:

– Ouça, jovem, eu lutei em Tara na grande batalha. Agora, todos os meus companheiros daquele dia de glória já estão mortos. Sou o último que resta. Jamais me esquecerei de nossa vitória. O rei Máel Sechnaill, dos Uí Néill, havia chegado ao poder do Reino de Mide e possuía o apoio de Leinster e Ulster. Só assim pudemos enfrentar os nórdicos de Olaf Cuaran, Rei de Dublin. Os exércitos se bateram não muito longe daqui, na Colina de Tara. Ainda posso sentir a excitação do combate. Os gritos, os trovões que resultam do encontro de metal contra metal.

Fearghal olhou para o céu, agora completamente encoberto pela neblina, e suspirou outra vez. Anrath permanecia em reverente silêncio. Então, o velho homem prosseguiu:

– Você tem idéia do que é uma grande batalha?

– Sim, velho, eu lutei na Batalha em Clontarf anos atrás.

– Você? Mas é claro, por isso conheço o seu nome. Você é Anrath, o Cão Negro! No entanto, não posso acreditar. O Cão Negro de que ouvi falar é um traidor cruel e sanguinário. Não um homem que ajudaria alguém como eu!

– Jamais recusei ajuda a alguém. Fiz coisas em meu passado que eu julgava serem corretas. Lutei ao lado dos vikings em Clontarf por que eles eram minha família. Sou um assassino, sim, porém não sou o monstro das histórias embriagadas que contam nas tavernas.

– Então, você realizaria o último desejo de um velho que está para morrer?

– Do que você está falando?

– Os habitantes desta região dizem que na primeira noite de Samhain é possível ver os mortos de Tara, guerreando por toda a eternidade no Outro Mundo. Quero ver a grandiosidade daquela batalha mais uma vez. Por isso vim para cá. Agora lhe peço: leve-me para a Colina de Tara, Anrath.

– Como vou levá-lo nesse estado até lá? Você morrerá rapidamente…

– Eu imploro, Anrath! Quero reviver essa glória. As estações passam, os feitos perdem sua cor, os homens esquecem. Pelo menos eu quero lembrar. Por favor, deixe-me rever a Batalha de Tara.

– Isso é loucura!

Diante da reação do mercenário, Fearghal balbuciou entre lágrimas:

– Dentro de algumas horas um novo dia nascerá, e eu não estarei mais nesse mundo. O que aconteceu em Tara se perderá para sempre. Antes de morrer, quero estar com meus companheiros.

Anrath pensou por alguns momentos. Não podia colocar o velho sobre o cavalo, pois o galope o mataria em pouquíssimo tempo. Mesmo que a Colina de Tara não fosse distante, não poderia arriscar. Ele socou o solo e embainhou a espada, resmungando quase imperceptivelmente. Então, tomou sua decisão e falou:

– Velho, eu o levarei até Tara!

O mercenário amarrou seu cavalo a uma árvore. Em seguida, tomou o velho homem nos braços e ergueu-o do solo. Teve cuidado para não lhe causar mais dor. Assim, Anrath deu os primeiros passos na direção de Tara. Fearghal, apesar do intenso sofrimento, se manteve silencioso.

Atravessaram a floresta a passo lento, observados apenas por ocasionais animais noturnos. Após cerca de meia hora, chegaram a uma clareira. Não muito distante dali, Anrath distinguiu a Lia Fáil, a Pedra do Destino, no local onde outrora eram coroados os Reis Supremos da Irlanda. O mercenário colocou Fearghal com cuidado no chão e disse:

– Chegamos, meu velho! Eis a Colina de Tara!

Fearghal olhou para o vasto terreno ondulado coberto de verde. As brumas da noite encobriam o campo e ostentavam uma coloração azulada devido ao brilho da lua. Tudo era tranqüilidade naquela paisagem. Não havia um único sinal de vida. Até mesmo o vento não soprava. Os dois homens ficaram ali parados, observando o bucólico cenário.

Desde o momento em que o mercenário o erguera do solo, o velho nada dissera. Tampouco deixara que a dor o fizesse soluçar ou gemer. Suportara com bravura cada passo dado pelo novo amigo enquanto este lhe conduzia ao seu destino final. Agora, o vazio das colinas verdejantes afligia seu peito. Teria sido tudo em vão? Iria ele morrer sem rever a gloriosa imagem do passado pela qual tanto ansiava?

O velho sentiu a vida escorregar de seu corpo como as areias de uma ampulheta. Foi então que algo o alertou. O vulto escuro se movimentou à sua frente e logo se transformou em algo magnífico. Fearghal, enfim, exclamou:

– Lá estão eles! É maravilhoso… Você os vê, Anrath?

A luz de um relâmpago iluminou a colina e, por um instante apenas, o mercenário pôde ver milhares de homens lutando ferozmente sob a densa neblina. O clamor do choque de armas retumbou através dos ventos. Espadas, escudos e elmos emanavam um fulgor espectral na noite sombria. Em meio ao caos do combate, Anrath avistou um homem muito parecido com o velho que agora jazia em seus braços. A semelhança era impressionante, embora o combatente da visão fantasmagórica fosse muito mais jovem.

Em segundos, a visão esvaneceu e o silêncio caiu outra vez sobre a Colina de Tara. Anrath abaixou os olhos para o velho Fearghal. Um leve sorriso marcava seu rosto imóvel, com o olhar fixado no horizonte. Estava agora no Outro Mundo.

– Descanse, Fearghal… Que Macha, Morrígan e Badb te recebam!

O mercenário pousou a cabeça do velho combatente no solo. Levantou-se e começou a juntar pedras. Fearghal merecia ser sepultado no local onde se deu o momento mais importante de sua história. O lugar que ele não queria esquecer. Com o tempo, Fearghal e aquela terra se tornariam um só.

Amanhecia e as brumas se dissipavam quando o trabalho de cobrir o corpo terminou. As gotículas de orvalho acumuladas sobre o sepulcro de pedras brilharam como cristais aos primeiros raios do sol. Um descanso apropriado para um guerreiro. Um monumento para as gerações que estavam por vir.

Fearghal temia aquilo que Anrath mais desejava: o esquecimento. O mercenário olhou mais uma vez para o monte de pedras antes de partir. Os homens são apenas sombras passando pelo tempo, pensou. Ontem, este lugar foi palco da maior de todas as batalhas, maior ainda do que a minha. Hoje, tudo o que resta dela é uma solitária sepultura sobre a colina.

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