Crônicas complementares sobre a 1ª Mostra de Ficção Científica de Macaé, por Clinton Davisson

Já se passaram vinte dias do lançamento da 1ª Mostra de Ficção Científica de Macaé no Solar dos Mello. Fatos recentes, e a insistência do nosso mestre Gerson Lodi-Ribeiro, me levaram a fazer esse relato complementar. Lembrando que o Gerson já fez uma ótima crônica do evento em seu site.

Primeiro vamos situar o leitor. A ideia era fazer o lançamento da coletânea Space Opera em Macaé. O livro foi lançado oficialmente em 1º de junho do ano passado no Rio e 4 de junho em São Paulo (ambos os casos esgotaram os livros da loja) e 8 de outubro em Curitiba, também com boas vendas.

Sabia que o chamado “senso comum” em Macaé em relação à venda de livros era pessimista. Mas sabia também que lançamento de livros no Brasil é sempre um problema. Então era mais um caso de “Se está na chuva, é para se molhar”. Macaé, na verdade, tem uma identidade cultural muito grande, de importância histórica e com rica tradição (berço de Benedito Lacerda, por exemplo, o gênio criador do chorinho), sendo conhecida como Princesinha do Atlântico. Essa identidade foi degradada em função do advento do petróleo que transformou aquela cidade praiana  na carrancuda Capital Brasileira do Petróleo. Para lembrá-la de sua verdadeira identidade, só precisava de uma forcinha.

Enfim, precisava do apoio firme da imprensa. Como trabalhei em todos os canais de tv possíveis: Globo, Record, Band e SBT e fui editor de TODOS os jornais de Macaé, sabia como atrair a imprensa: imagens fortes. Apenas escritores não eram atrativo suficiente, tinha que haver mais. Lancei mão da minha amizade com o Conselho Jedi RJ, do qual posso me considerar “fundador benemérito”, pois participei da sua fundação nos anos 90, apesar morar em Minas Gerais na época.

Os membros do Conselho se prontificaram a ajudar com brinquedos e outros artefatos ligados a Star Wars. Oportunamente, o Conselho Jedi SP, que também ajudei a fundar, me deu uma mãozinha decisiva no Rio, me apresentando ao Alessandro Tuze, que mora em Manilha, relativamente próximo à Macaé, e que é presidente do fã clube 501st Legion. Um dos maiores aglomerados de cosplayers do planeta, com mais de 300 membros espalhados pelo país, todos com armaduras e fantasias relacionadas à Star Wars.

Pronto, eu tinha as armas que precisava para atrair a imprensa: brinquedos, espadas brilhantes, armaduras belíssimas!

O evento teve bom apoio da Prefeitura de Macaé. A Secretaria de Educação, que sempre apoiou meus projetos, entrou com a complicada logística envolvendo três transportes para o Rio, enquanto a Secretaria de Cultura, através do Solar dos Mellos, cedeu o local e ainda providenciou um belo coquetel.

Dois patrocinadores, o Office Total, que providenciou mais de 100 cartazes e 300 convites, e o Turismo Hotel, que cedeu quartos para acomodar os escritores, complementaram o show.

O decorrer do evento em si pode ser acompanhado pela bela crônica do Gerson. De acrescentar de minha parte, há o meu desejo de esganar o Marcelo Jacinto Ribeiro que, apesar da orientação de NÃO comprar passagem de avião com chegada para APÓS 14H, resolveu comprar uma com chegada às 14:55. Claro que o avião atrasou e quase detona o evento. Mas a gente perdoa porque ele escreveu o que, para mim, foi o melhor conto da Coletânea Space Opera.

Outro detalhe da Murphy’s Law foi quando eu ia apresentar os escritores para a imensa plateia presente e descobri que os mesmos, ao invés de virem correndo em direção à plateia, correram na direção oposta. Segundo o meu metódico amigo, Hugo Vera, a ideia era que todos aparecessem uniformizados com a camisa do Space Opera. Ficou realmente bonitinho nas fotos, mas uns 10 livros deixaram de ser vendidos nesse processo, porque a plateia se dispersou. Claro, se o Marcelo não tivesse atrasado… Mas eu disse que perdoava, né? Vamos esquecer isso…

O fato é que foram mais de 30 livros vendidos durante o evento e os donos de editoras que estiverem lendo isso, sabem que isso é um resultado ótimo no Brasil para um evento fora do eixo Rio-SP.

O melhor. entretanto. ainda estava por vir. O Alessandro Tuze me emprestou uma armadura de stormtrooper, mais precisamente do sandtrooper, que pode ser visto no Episódio IV – Star Wars, no desértico planeta Tatooine. A armadura contava, entre outros detalhes minuciosos, com um blaster, ou seja, uma arma de raios. O design de produção de Star Wars é famoso pelo realismo. Parece realmente uma arma de verdade.

O problema é que acabei colocando a arma, durante uma entrevista para o SBT, junto com os brinquedos na exposição. O Alessandro me ligou, dizendo que precisava do blaster urgentemente. A solução foi encontrar um motorista que estivesse indo para o Rio de Janeiro e pedisse para passar em Manilha. O meu salvador foi o motorista Tatá, sempre prestativo. Expliquei a ele como chegar à rua principal da cidade onde morava o Tuze que, por sua vez, explicou que não estaria em casa no momento em que o Tatá passasse lá. O blaster deveria, então, ser deixado na cabeleireira ao lado do portão do presidente do 501st.

Tatá fez tudo direitinho. Chegou com o carro e parou em frente à cabeleireira. Desceu e perguntou para ela:

– É aqui que mora o Alessandro Tuze?

– Sim – respondeu a cabeleireira.
– Número 46?

– Sim, é ele mesmo?

– Tem certeza? – insistiu Tatá para não haver nenhum equívoco.

– Sim, senhor. Já é ele mesmo!

Tatá então voltou para o carro, abriu o porta-malas e, de lá, retirou a arma de proporções avantajadas e veio empunhando a mesma em direção à cabeleireira, na rua mais movimentada da cidade de Manilha.

A gritaria foi geral! Gente se abaixando… Gente gritando, rezando, correndo, tropeçando e caindo para fugir de Tatá, julgando ser o provável e temível “Atirador de Manilha”! Muitos já imaginavam a capa de todos os jornais do Brasil sobre a tragédia que se formaria ali.
Para todos os presentes, aqueles eram os últimos segundos de Alessandro Tuze neste mundo.

– Sandra! – gritou a cabeleireira desesperada. – Tem um homem com uma arma aqui fora querendo matar o Alessandro!

Por sorte, Sandra, esposa de Alessandro, chegou até o portão, ao invés de correr. Viu Tatá empunhando o poderoso blaster e sorriu.

– Nossa, que bom! O Clinton mandou a arma! Obrigado moço! – disse gentilmente Sandra recebendo o blaster das mãos do, agora, terrivelmente sem graça, Tatá.

Sem graça também ficaram a cabeleireira e todos os transeuntes da movimentada rua que, não tiveram outra opção se não continuar com suas vidas. Tatá não era, afinal de contas, o temível atirador de Manilha. Somente o prestativo motorista de Macaé.

Semana que vem, vou ao Rio devolver todos os artefatos pertencentes à exposição. Pelo jeito, novas aventuras me aguardam. Ficção científica no Brasil é isso aí, a arte de deixar a todos perplexos.

Vejam a causadora de todos os distúrbios:

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2 Respostas para Crônicas complementares sobre a 1ª Mostra de Ficção Científica de Macaé, por Clinton Davisson

  1. Para os leitores parece que EU fui o responsável por uma tragédia de proporções bíblicas, mas faço questão de afirmar que toda a culpa é da companhia aérea que atrasou o vôo ! Agora deixando de lado a brincadeira quero deixar registrado que foi um enorme prazer ser convidado e participar desse evento, aonde revi meus grandes amigos Hugo Vera, Gerson Lodi-Ribeiro e o autor dessa crônica (que tanto me difama…) bem como ter conhecido novos e fascinantes amigos. Infelizmente já tinha um compromisso agendado para a manhã daquele dia, igualmente importante e inadiável, o que me deixou sem opções de viagem mais cedo, mas tenho certeza que todos concordam que o saldo final foi positivo, brilhante ! Prometo desde já que na próxima vez irei na véspera do evento, e estarei preparado para criticar e amaldiçoar qualquer atraso alheio ! Obrigado pelo dia corrido e maravilhoso que tive, presidente Clinton, sempre as ordens para o próximo !

  2. Flávio Medeiros Jr. diz:

    SEN-SA-CIO-NAL! Vai para os anais!…rs*

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