Obituário de Raul Avellar

Presidente Clinton Davisson, Raul Avelar, Alberto Oliveira e Ana Cristina Rodrigues na última reunião do CLFC

Presidente Clinton Davisson, Raul Avelar, Alberto Oliveira e Ana Cristina Rodrigues na última reunião do CLFC

Por Miguel Carqueija

Falecido em 9 de maio de 2015, aos 78 anos, Raul Lima de Avellar e Almeida, que residia em Copacabana, no Rio de Janeiro, foi um dos fundadores do Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC) em 1985. O fundador original do CLFC, Roberto Nascimento, ainda vive em São Paulo, mas de há muito afastado das atividades por mtivos de saúde.
Eu vim a conhecer o Raul em 1987, quando de meu próprio ingresso no CLFC, e com o tempo tornou-se um dos meus melhores amigos. Creio que tínhamos muita afinidade e nossas conversas eram bastante animadas, quando havia oportunidade. Raul era ótimo para falar sobre futebol e suas reminiscências pessoais. Nunca esquecerei de quando ele me contou de sua experiência pessoal em 1950, quando do trágico jogo final do Brasil na Copa do Mundo, com o Uruguai, em pleno Maracanã. Ele era adolescente e foi assistir a partida, acompanhando o tio. Segundo o Raul, “não se cogitava que o Brasil perdesse”. O clima de euforia era totalmente exagerado, pois a vitória era considerada como certa. A imprudência tomou conta do país e atingiu os jogadores, que naquele dia não almoçaram, forçados que foram a assistir discursos de políticos, ou seja patriotadas onde já eram saudados como os novos campeões do mundo. Eu cheguei a escutar um pequeno trecho num programa de tv, onde um desses políticos afirmava aos jogadores que, dentro de poucas horas, eles teriam conquistado a Copa.
À saída do Maracanã, um silêncio assustador, Ruas que se esvaziavam, enquanto eles caminhavam, o Rio de Janeiro parecia uma cidade fantasma. Eis o resultado de toda aquela empáfia.
Isso ele me contou antes da Copa de 2014. E o fenômeno se repetiu de outra maneira. Não foi tão ruim como se chegássemos à final; mas o resultado foi muito mais humilhante. O clima de “já ganhou” porque jogávamos em casa se repetiu, estupidamente. Houve locutor de tv que afirmou que, com certeza, nós ganharíamos o campeonato mundial. No entanto está visto que, dessa vez, nem futebol tínhamos para derrotar as grandes equipes européias.
Raul não era escritor de ficção científica e nem crítico, mas leitor, fã e colecionador. Foi um dos poucos que conseguiram, no Brasil, reunir a lendária Coleção Argonauta, portuguesa, inteira em seus 560 números. Uma coleção que é a maior da língua portuguesa, e que aqui aparece mas fotos tiradas pela Melanie, destacando-se dos outros livros na estante, onde podem ser vistos, por exemplo, alguns da famosa coleção brasileira de bolso, a Futurãmica, das décadas de 50/60.
Célia, esposa de Raul, contoiu-nos detalhes de sua vida. Em criança, ainda na década de 40, Raul conheceu os Estados Unidos e a França, acompanhando o pai que foi adido militar. Depois, entre 1949 e 1955, estudou no Colégio Militar no Rio de Janeiro – dentro desse período ocorreu o famoso caso da final da Copa.
Entre 1957 e 1962 Raul estudou na Faculdade Nacional de Direito (atual UFRJ) e entrou para o Banco do Brasil em 1958. Casando-se com D. Célia em 1959 – portanto 56 anos de matrimônio, o que é raro – na década de 1960 nosso amigo passou a se interessar pela ficção científica, e levou aproximadamente 40 anos para completar a Coleção Argonauta.
No início de 2014 Raul Avelar despediu-se das reuniões do CLFC, por não ter mais condições físicas para acompanhá-las.
Quem o conheceu sabe que era uma pessoa afável, culta, de excelente nível e conversação agradável. E não o esquecerá facilmente.

Rio de Janeiro, 18 de junho de 2015.

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2 Respostas para Obituário de Raul Avellar

  1. Miguel Carqueija diz:

    Ah, ficou ótima. Era uma pessoa tão amiga e simpática que às vezes custo a crer que nos deixou.

  2. Miguel Carqueija diz:

    Desculpe, não expliquei bem. Ficou ótima a foto colocada pelo Clinton.

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