Resenha – Kaori: Perfume de Vampira, de Giulia Moon, por Daniel Borba

Antes de mais nada, quero dizer que Kaori (2009, Giz Editorial) é um livro fantástico.

Giulia Moon é uma autora já experiente e querida dentro do fandom, daquelas que a gente sabe que vai sempre escrever um livro bom. Mas Kaori supera qualquer expectativa. O livro é ótimo. Uma das minhas melhores leituras dos últimos tempos.

O livro é escrito de maneira muito inteligente. Há duas linhas narrativas simultâneas. Os capítulos vão se alternando, ora no passado, ora no presente, apresentando duas histórias  que, apesar de independentes, vão caminhando para um desfecho único, imperdível e simplesmente arrebatador.

A história no passado é a origem de Kaori. Começa no Japão feudal do século XVII, com a menina ainda criança, órfã de mãe e cobiçada por uma famosa cortesã da região. Vítima das circunstâncias, Kaori acaba transformada numa poderosa vampira, que não mede esforços para se vingar dos que a fizeram sofrer.

Através dos séculos, Kaori se torna uma assassina fria e cruel, mas continua guardando muito da meiguice que tinha quando era uma menina frágil e mortal. Isso a torna uma personagem fantástica, irresistível. É difícil não gostar dela, mas em determinado momento, a própria vampira avisa: “nunca confie em um vampiro.”

Paralelamente à história de Kaori, o leitor retorna ao século XXI e conhece Samuel Jouza (não é erro de digitação, o nome é esse mesmo), um vampwatcher, um sujeito que ganha a vida observando e catalogando vampiros para um tal de “Instituto Brasileiro de Estudo de Fenômenos Fantásticos” (IBEFF). O rapaz tem uma vida relativamente tranquila, até que topa com vampiros mais poderosos do que os de costume. E aí sua vida se complica.

O livro traz ainda outras figuras interessantes: a cortesã Missora, uma personagem odiosa, vilã daquelas “do mal” mesmo. Há o pintor e aventureiro José Calixto, um legítimo cavalheiro, que viaja do Brasil até o Japão no século XIX em busca de fortuna e se depara com um mundo diferente não só na cultura, mas cheio de monstros desconhecidos e assustadores; há também seu companheiro, o samurai Kodo, fiel em todos os momentos.

Nos dias de hoje, há o próprio IBEFF, uma organização misteriosa e cheia de recursos. Há a bióloga Beatriz, estudiosa dos famélicos, uma raça de animais que vive numa relação quase simbiótica com os vampiros. Há também o vampiro Takezo, um sujeito rico e misterioso, que parece ter uma dívida de honra com Kaori.

O livro começa muito bem e já segura o leitor logo no início. Os primeiros três ou quatro capítulos são de tirar o fôlego, dando uma prévia do que virá a seguir. É interessante mencionar que o livro não perde força em momento nenhum. As duas linhas narrativas são empolgantes. Há momentos tensos, assustadores e cheios de aventura. Temos vampiros bons, maus e alguns que extrapolam qualquer noção de maldade, sendo crueis de verdade.

Eu encontrei no livro pelo menos duas referências a um clássico da literatura japonesa: Musashi, um livro pelo qual sou apaixonado. Uma das referências é óbvia, a outra pode ter sido simplesmente imaginação minha. Mas o leitor vai ter que conferir no livro, porque se eu contar alguma coisa aqui, vou certamente estragar algumas surpresas.

Kaori é um livro excelente. Não é simplesmente um daqueles livros para “fãs do gênero”. E não se baseia na fama de Giulia Moon para fazer sucesso. É um livro que qualquer leitor vai apreciar.

Para concluir, cito as palavras da Martha Argel, outra conhecida autora especializada em vampiros: “Sensual e com um ritmo de tirar o fôlego, Kaori é irresistível. Ssem dúvida, um dos melhores livros de vampiros que já li (e não foram poucos).”

 

 

 

 

 

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Lançamento: Farol do Espaço Profundo

O lançamento de Farol do Espaço Profundo, do escritor catarinense Roberto Belli, terá seu lançamento em Blumenau – SC, cidade onde o autor vive, no dia 19 de abril, a partir das 19:30. O evento será no Norte Shopping.

Farol do Espaço Profundo, editado pela Nova Letra Gráfica e Editora, é uma reunião de seis histórias curtas do autor. Destaque para a noveleta que empresta o  título ao livro e O Mar de Galant.

Roberto Belli já trabalhou como revisor e preparador de textos para a Editora Scipione e escreveu algumas coleções de sucesso para a Editora Todolivro, como a Coleção Sentimentos e Aventuras de Maguinho na Cidade do Conhecimento. Atualmente escreve roteiros de quadrinhos e animações para a produtora Belli Studio.

Na literatura fantástica, publicou Os Ceifadores (2007, Projeto Troque Lixo por Livro).

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Mostra de ficção científica em Macaé

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Programa Literatura Nerd websódio 2 – O Hobbit

Programa Literatura Nerd websódio #2, com resenha do livro O Hobbit de J.R.R. Tolkien, apresentado pelo jornalista e escritor Clinton Davisson, presidente do Clube dos Leitores de Ficção Científica do Brasil.

Literatura Nerd #2 – O Hobbit

 

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Resenha – O Mundo Fantástico de H.P. Lovecraft – Projeto de Antologia de contos na reta final

O pessoal do sitelovecraft está com um projeto bem interessante para lançar uma antologia bastante completa de contos de H.P. Lovecraft.

Denílson Ricci, um dos responsáveis pelo projeto enviou um release do livro. Sem dúvida, é uma excelente oportunidade para quem sempre desejou conhecer e se aprofundar na ficção de um dos grandes mestres do horror cósmico.

CONHEÇA O LIVRO ‘O MUNDO FANTÁSTICO DE HP LOVECRAFT’

O www.sitelovecraft.com é um site que há 8 anos divulga no Brasil a vida e obra do famoso escritor americano de contos de horror H.P. Lovecraft (1890-1937).

Recomendamos a todos os amantes de ficção de horror ou simpatizantes do gênero que conheçam este sítio e seu mais novo projeto que é um livro com novas traduções da obra (hoje em domínio público), deste fantástico escritor que foi Lovecraft.

Este livro nasceu para ser um livro diferente, com o objetivo de dar ao leitor no momento de sua leitura a imersão neste mundo de fantasia e mistério que Lovecraft criou. A obra terá entre outras coisas mais de 400 páginas, uma capa muito bem elaborada, fino acabamento e papel de primeira qualidade, fotos, longa biografia do autor, contos clássicos e outros inéditos e novas traduções muito bem revisadas e notas que darão uma nova releitura, mesmo para quem já leu algum de seus escritos.

ABAIXO O SUMÁRIO DO LIVRO

Prefácio: O Início de Tudo

Introdução e Agradecimentos: A Nossa Ideia de um Livro
Biografia de H.P. Lovecraft: O Homem que Escrevia Sonhos

Contos, Fragmentos e Ensaios

O Chamado de Cthulhu
O Festival
A História do Necronomicon
A Cor Vinda do Espaço
A Cidade sem Nome
O Descendente
A Rosa da Inglaterra
Sonhos na Casa da Bruxa
Desespero
O Horror de Dunwich
Nêmesis
A Busca de Iranon
Os Gatos
O Forasteiro
O Jardim
Celephaïs
Providence
Horror em Martin´s Beach
Uma Elegia ao Dr. Franklin Chase Clark
O Inominável
A Sombra sobre Innsmouth
O Sabujo
Um Sussurro na Escuridão
O Depoimento de Randolph Carter
A Armadilha
A Música de Erich Zann
O Assombro das Trevas
Os Fungos de Yuggoth

Apêndices

Notas sobre Escrever Ficção Fantástica

Carta de HPL a Reinhard Kleiner
Carta de HPL a Robert Bloch
Carta de HPL a Robert E. Howard
Frases famosas de HP Lovecraft

No momento o livro está em sua reta final de desenvolvimento, e ele depende de pré-venda para se tornar realidade uma vez que é baseado no trabalho voluntário e não temos condições financeiras para bancar o livro e receber depois.

Nossa garantia para tal é a credibilidade de 8 anos com o www.sitelovecraft.com além de lhes passar endereço e fone pessoal para sanar quaisquer dúvidas se desejarem. Caso o projeto não desse certo (possibilidade que já não existe) deixamos bem claro que todo valor seria devolvido em conta a sua escolha.

Informações podem ser obtidas no link abaixo:

www.sitelovecraft.com

Ou pelo e-mail: de3103@yahoo.com.br

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Há espaço ainda para o cyberpunk? – por Lidia Zuin

Há dois anos, eu apresentei na minha antiga faculdade, Cásper Líbero, a monografia de iniciação científica Wired Protocol 7: Um estudo sobre Serial Experiments Lain e a alucinação consensual do ciberespaço. Ela, que na verdade foi concluída em 2009, abriu-me caminhos para um gênero que, já na época, encontrava-se um tanto estagnado no mercado editorial brasileiro e internacional. Dizem que o cyberpunk está morto, porque já o vivemos agora – daí a transformação do cyber em nowpunk. E, nesse sentido, é possível observar que vários escritores que fizeram parte da criação do cyberpunk estão migrando para gêneros como a dark fantasy ou a fantasia urbana.

John Shirley e Rudy Rucker, por exemplo, fazem parte da primeira geração do cyberpunk, junto de Bruce Sterling, William Gibson, Neal Stephenson e Pat Cadigan. Ambos, em suas mais recentes obras, produziram histórias mais voltadas à fantasia que à ficção científica. Shirley, que em 2009 publicou Bleak History, tem seu livro descrito como “uma quase fusão do cyberpunk com a fantasia urbana”, enquanto Jim and the Flims (2011), de Rucker, pula de cabeça na fantasia. Em entrevista para o io9, o escritor explica que “certos tipos de ciência se tornaram um pouco monótonos e desestimulantes”: “Relatividade, mecânica quântica, biotecnologia, realidade virtual – elas estão um tanto velhas. Eu gosto da ideia de uma nova ciência que é tão exagerada e estranha que parece magia. Como você a encontra? Comece com magia, então siga o caminho contrário direto para um tipo de ciência louca do futuro que seja capaz de justificar”. Como a reportagem indica, Rucker já havia publicado em seu blog que estava “cansado de lidar com explicações para coisas estranhas em seus livros”.

Mas quem disse que fazer ficção científica é fácil? Em 2010, quando organizei o evento Science’n’Fiction na Cásper, tivemos a participação de dois físicos: João Zuffo e João Kogler, ambos profissionais do Departamento de Sistemas Eletrônicos da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. O primeiro apresentou uma série de gráficos, vídeos de robôs e outras inovações tecnológicas recentes que induziu à ideia de que a ficção científica e a ciência caminham lado a lado – inclusive, Zuffo é autor do romance de ficção científica Flagrantes da Vida no Futuro (Editora Saraiva, 2007).

Já Kogler deu seu depoimento pessoal, lembrando-se de quando era criança e como havia um encantamento por filmes e seriados, como Star Trek, os quais o teriam influenciado a se tornar o cientista que é atualmente. Tal relação binômia se dá de maneira dual, uma vez que tanto a ciência pode influenciar a ficção científica quanto o contrário. Neste caso, é só pensar nos primórdios da FC para lembramos de grandes nomes da ­hard sci-fi como Arthur C. Clarke e Isaac Asimov, inventor e professor de bioquímica respectivamente. O autor de 2001: A Space Odyssey (1968) ao publicar o artigo “Extra-Terrestrial Relays — Can Rocket Stations Give Worldwide Radio Coverage?” (1945) na Wireless World, revista britânica de entusiastas do rádio e da eletrônica, influenciou na criação dos satélites geoestacionários, os quais orbitam na então chamada “Órbita Clarke”. Na verdade, Clarke só popularizou um conceito já discutido em 1928 por Herman Potočnik, cientista de foguetes austro-húngaro. Isto é, a ficção científica é capaz de comunicar e interpretar ideias reservadas ao âmbito das ciências, proporcionando não apenas uma leitura leiga como uma inspiração científica.

O amolecimento da FC

Mas já que a hard sci-fi era tão apegada assim ao positivismo e ao método cartesiano, à grande preocupação em explicar tudo minuciosamente de acordo com a lógica das ciências exatas, foi nos anos 1980 que surgiram os “punks” da FC, os quais sugeriram uma versão soft da ficção científica. Acompanhando as inovações tecnológicas na área da cibernética, o sexteto de escritores iniciou o cyberpunk com ideias menos “duras”, mais preocupadas com as experiências proporcionadas por um mundo em que a tecnologia é muita e a qualidade de vida é pouca (high tech, low life, lema do cyberpunk).

Depois das distopias de George Orwell e Aldous Huxley, da Segunda Guerra Mundial, da Guerra Fria, mais a Guerra no Vietnã e tantas outras, foi natural o crescimento de uma falta de perspectiva por parte da juventude (no future, como cantava o Sex Pistols em God Save the Queen). O niilismo prosperava por toda a América, especialmente na Latina, que apelidou os anos 80 como a “década perdida” devido à estagnação econômica. Ainda assim, foi uma época de grande pesquisa na área da cibernética e de início da cibercultura, já que em 1988 houve a abertura da rede mundial de computadores, antes apenas acessível às universidades e aos militares, para interesses comerciais – mais tarde, nos anos 1990, ganhando sua versão World Wide Web (WWW). Aliás, em termos de cibercultura, estuda-se a internet até hoje conforme o termo “ciberespaço”, cunhado justamente por Gibson em suas ficções. Ou seja, o cyberpunk já nasceu dentro de um contexto tecnológico, como explica Bruce Sterling, no prefácio da antologia Mirrorshades:

Os cyberpunks talvez sejam a primeira geração a crescer não somente dentro da tradição literária da ficção científica, mas em um mundo verdadeiramente de ficção científica. Para eles, as técnicas da “FC hard” clássica – extrapolação, alfabetização tecnológica – não são ferramentas literárias, mas um auxílio para a vida cotidiana (apud FERNANDES, 2006, p.51).

Então, por que escutamos que o cyberpunk está morto, uma vez que já vivemos num mundo cyberpunk? Talvez porque alguns imaginem que o gênero tenha ficado estagnado no pensamento e estética dos anos 1980, não se atualizando para entender o mundo na época atual. Mas, seguindo essa lógica, teoricamente, a vertente já nasceu velha, uma vez que, como Gibson brinca no prefácio de Neuromancer, ele foi capaz de “prever” o ciberespaço e influenciar todo um comportamento hacker, mas não conseguiu “imaginar” o telefone celular. Isso porque em 1973, Martin Cooper, pesquisador e executivo da Motorola, já havia montado o primeiro telefone móvel analógico, além de a primeira geração (1G) de celulares ter sido lançada em 1979, no Japão. No entanto, a verdadeira utilização da telefonia móvel só aconteceu nos anos 1990, com a chegada da segunda geração (2G).

Mas essas constatações não devem ser utilizadas como uma arma contra Gibson, já que a ficção científica não tem como propósito prever o futuro, mas criar situações fictícias mais ou menos prováveis de acordo com uma lógica científica mais ou menos estrita. Reforçando, o cyberpunk ou a soft sci-fi não tinha (ou não tem) tanto comprometimento com as ciências duras ou exatas como a hard sci-fi. O cyberpunk trouxe muito mais um comportamento e um pontapé inicial para quebrar a porcelana intocável das obras da geração dos anos 30. No fanzine Cheap Truth, lançado em 1982 por Bruce Sterling, Lewis Shiner escreveu, sob o pseudônimo de Sue Denim, sobre a hard sci-fi como uma ficção científica moralista, “do tipo que a mamãe e o papai gostam e permitem” (apud FERNANDES, 2006, p.52), acrescentando que:

Talvez as pessoas que votam nos [prêmios] Nebula ainda tenham medo de suas mamães e papais; talvez eles próprios ainda não sejam mamães e papais. Isto explicaria por que eles não votam em livros com ideias de verdade, sexo de verdade e linguagem de verdade (apud FERNANDES, 2006, p.52).

E, realmente, uma das cenas de sexo mais interessantes que já li foi justamente num livro de cyberpunk, especificamente o Count Zero, de William Gibson, traduzido por Carlos Angelo e publicado no Brasil pela editora Aleph:

E, aos poucos, sem palavras, ela lhe ensinou um novo tipo de desejo. Estava acostumado a ser servido, a ser atendido anonimamente por profissionais experientes. Agora, na caverna branca, ele se ajoelhava nos ladrilhos. Baixava a cabeça, lambendo-a, o sal do Pacífico misturado à umidade da mulher, o frescor das coxas envolvendo seu rosto. Com as mãos apoiando os quadris dela, ele a segurava, erguia-a como um cálice, seus lábios pressionando com firmeza, enquanto a língua buscava o local exato, o ponto, a frequência que a faria chegar lá. Em seguida, com um grande sorriso, ele subiria nela, a penetraria, e acharia seu próprio caminho até lá (GIBSON, 2008, p.18)

Isso tudo para depois descobrir que a mulher com quem o personagem se relacionava foi contratada para espioná-lo. Com o perdão do spoiler, mas é necessário destacar como o cyberpunk não só quebra com o moralismo e com o mundinho perfeito da antiga FC trazendo tais reviravoltas, como também tem um estilo totalmente cru. Sem muitas firulas na linguagem, o cyberpunk constrói um mundo noir e que acha sua própria elegância na sarjeta: prostitutas, junkies, ciborgues periféricos, paraísos tropicais permeados por tecnologia e comércio ilegal, femme fatale, “samurais de asfalto”, armadilhas e perseguições, estereótipos azedados pelo niilismo etc.

Além dos livros

O cyberpunk não criou apenas uma literatura, mas uma postura, uma subcultura. Em AMARAL (2006), descobrimos a ligação da subcultura gótica com a cyberpunk, hacker, clubber e outras. Percebemos, com a leitura do livro da professora da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, que é como André Lemos, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), aponta em Cibercultura. Tecnologia e vida social na cultura contemporânea (2002):

A cultura cyberpunk não é somente uma corrente da Ficção Científica, mas um fato sociológico irrefutável, uma mistura de esoterismo, programação de computador, pirataria e Ficção Científica, influenciada pela contracultura americana e pelos humores dos anos 80. Cultura hiper-tecnológica, ela está presente em vários países, com formas diferentes de expressão. A atitude cyberpunk é, acima de tudo, um comportamento irreverente e criativo frente às novas tecnologias digitais (apud AMARAL, 2006, p.39).

E também como Timothy Leary, neurocientista e futurista, diz em The cyberpunk: the individual as reality pilot (1988):

Cyberpunks são os inventores, escritores inovadores, artistas tecnofronteiriços, diretores de filmes de risco, compositores de mutação icônica, artistas expressionistas, livre-cientistas tecno-criativos, visionários dos computadores, empreendedores inovadores do show-bizz, hackers elegantes, videomagos dos efeitos especiais, pilotos de testes neurológicos, exploradores de mídia (apud AMARAL, 2006, p.38).

Isto é, o cyberpunk inundou muitas áreas da cultura, artes, além da ciência. Um exemplo está na “ciborguização do rock”, termo que Adriana Amaral usa em seu livro Visões Perigosas: uma arque-genealogia do cyberpunk, para explicar a música industrial, que é uma categoria da música eletrônica surgida no Reino Unido no fim dos anos 1970. Mais recentemente, com o desenvolvimento desse gênero e aproximação da sonoridade com ritmos como o techno, trance e metal, muitas bandas começaram a demonstrar uma real aproximação com o cyberpunk. Seja com títulos de álbuns (como Neuromance, do Dope Stars Inc) ou com nome de músicas (como CYB3R D35TRUCT1ON, do T3RR0R 3RR0R), há ainda bandas que inserem samples de filmes de ficção científica, várias vezes pertencentes ao gênero cyberpunk – como vocês podem ouvir neste podcast. Em COLLINS (2002), há a seguinte tabela de amostras de som que a pesquisadora reconheceu de acordo com uma amostragem de canções de grupos de música industrial:

Nessa mesma obra, aliás, a autora insere uma citação de Bruce Sterling, que diz:

Conforme a conexão [entre a música industrial] com o cyberpunk continua, é realmente muito óbvio saber como isso tudo começou. A música industrial está tratando da tese do “homem assimilado na máquina” desde seu início. A SRL, Industrial Records, Portion Control e tantos outros sabem quantos outros músicos e artistas performáticos incorporaram [o cyberpunk] às suas criações (apud COLLINS, 2002, p.95).

Ano passado, por exemplo, o Partido Pirata alemão passou a utilizar como “hino” de sua causa a música Lies Irae, da banda italiana Dope Stars Inc. Ela, que segue uma premissa bastante fundamentada no cyberpunk, disponibilizou o último álbum, Ultrawired, gratuitamente na internet. A canção, que brinca com o título de uma das partes do Réquiem (Dies Irae), diz:

“We are living just to surf, cut, copy, paste
We are connected through our cyberspace
and every chatroom is the mother base
We know you’re quick to hide and cover up the facts
But We discover all of your hidden tracks
We’re changing all the rules of the game!

Ooooh,
we’re gonna hack their base
we’re the truth to face
peer-to-peer cyberspace
(…)
we are a generation of terabytes
we have no leaders, just our crazy hives
We’re gonna win this fight in any way
you want to be a part of the new era
And we no longer listen to your lies
We don’t believe in anything you say!” (Song Meanings)

E essa canção foi lançada bem próxima à época em que o Wikileaks estourou. Ou seja, faz sentido dizer que já vivemos o cyberpunk, mas Sterling, Gibson, Shirley, Rucker, Stephenson e Cadigan também, em 1980. Não é desculpa. Hackers já existiam naquele tempo (o nome cyberpunk veio de um conto de Bruce Bethke, que teve seu computador invadido) e continuam firmes até hoje, seja adquirindo informações confidenciais de governos, seja agindo por uma causa, como os Anonymous, ou agindo como crackers, ripando jogos e softwares para serem disponibilizados gratuitamente na rede, compartilhando arquivos e “quebrando as pernas” da indústria fonográfica. É igual e é diferente. Mas quantos estão aproveitando essa onda para criar?

A resistência

A trilogia Millenium (2008-2009), escrita pelo sueco Stieg Larsson, apesar de não ser uma obra cyberpunk, trouxe como protagonista uma hacker que ajuda na investigação de um jornalista. Os filmes Terminator Salvation (2009), Surrogates (2009), Repo Men (2010) e Sleep Dealer (2008) trabalharam com diferentes noções de realidade virtual. O anime Ergo Proxy (2006) aborda um futuro pós-apocalíptico com robôs e inteligências artificiais, enquanto o game Deus ex: Human Revolution (2011) foi um prequel da série que discutiu os limites da humanidade quando detentora de uma alta tecnologia. Já os seriados Dollhouse (2009-2010) e Caprica (2011) levaram à TV diferentes versões do cyberpunk, sendo que o último abordou muito profunda e interessantemente a questão da realidade virtual e do pós-humanismo, da possibilidade de transferirmos nossa consciência para uma máquina. Nos quadrinhos, Transmetropolitan (1997-2002) é o que se destaca, principalmente ganhando o título de pós-cyberpunk – que é um rótulo com o qual eu não concordo, mas que não vem ao caso agora.

Enfim, se me perguntassem o que eu acho das considerações de Rucker ao io9, eu diria que ele está sendo preguiçoso (risos). É claro que para escrever uma boa ficção científica cyberpunk é preciso certo conhecimento científico e/ou pesquisa, mas nada que necessite um título em matemática, física ou bioquímica. Agora, se o caso é a falta de interesse do mercado editorial ou dos leitores, deixo em aberto essa questão. Até porque continuamos vendo resquícios, como os mencionados no parágrafo anterior, assim como em nosso próprio solo, com autores como Roberto de Sousa Causo, que “milita” na causa desde os anos 1990, junto de Fábio Fernandes (Os Dias da Peste, 2009), Richard Diegues (Cyber Brasiliana, 2010), Carlos Orsi (Guerra Justa, 2010), Mario Kuperman (Labirinto Digital, 2005), Luis Bras (Paraíso Líquido, 2010), além da antologia Cyberpunk: Histórias de um Futuro Extraordinário publicada pela Tarja Editorial em 2010 e do Duplo Cyberpunk (2010), com os contos de Roberto de Sousa Causo e Bruce Sterling.

Por isso, não se rendam às fumacinhas encantadoras do Steampunk ou às maravilhosas histórias da fantasia: o cyberpunk foi nos anos 80/90 e o cyberpunk é agora! :)

 

Referências

ANDERS, Charlie Jane. Why do so many former cyberpunk authors now write dark fantasy? In: io9. Disponível em: <http://io9.com/5795217/why-do-so-many-former-cyberpunk-authors-now-write-dark-fantasy>

AMARAL, Adriana. Visões Perigosas: Uma Arque-Genealogia do Cyberpunk. Porto Alegre: Editora Sulina, 2006

COLLINS, Karen E. “The Future is Happening Already”: Industrial Music, Dystopia, and the Aesthetic of the Machine. Ph.D. Thesis. Liverpool: University of Liverpool, 2002

______. Dead Channel Surfing: the commonalities between cyberpunk literature and industrial music. Popular Music (2005) Volume 24/2. Cambridge University Press, pp. 165-178

FERNANDES, Fábio. A construção do imaginário cyber. William Gibson, criador da cibercultura. Editora Anhembi Morumbi, 2006

GIBSON, William. Count Zero. Tradução: Carlos Angelo. São Paulo: Editora Aleph, 2008

STERLING, Bruce; CAUSO, Roberto de Sousa. Duplo Cyberpunk: O Consertador de Bicicletas e Vale-Tudo. São Paulo: Devir livraria, 2010

Lidia Zuin é jornalista e mestranda em Comunicação e Semiótica. Autora de contos publicados pelas editoras Draco (Imaginários vl. 3, Meu Amor é um Anjo, Space Opera II) e Estronho (Steampink), pesquisadora em comunicação e cultura, entusiasta cyberpunk e autora dos blogs Fiercekrieg e Kunst ist Krieg.

 

 

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Programa Literatura Nerd – episódio I – Space Opera

Cliquem no link abaixo para assistir ao primeiro episódio da série Literatura Nerd, produzida por Clinton Davisson, escritor, jornalista e atual Presidente do CLFC. O primeiro episódio comenta o livro Space Opera, coletânea organizada por Hugo Vera e Larissa Caruso.

Literatura Nerd #1 – episódio I – Space Opera

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Conto – O Capitão Barbosa, por Miguel Carqueija

― Temos um problema sério, Capitão Barbosa – disse o imediato Zé Peroba.

― Não me traga problemas, traga soluções – respondeu Barbosa, enquanto traçava a sua feijoada mineira.

― Mas Capitão, o caso é urgente!

― O que pode ser tão urgente assim? Estamos sendo atacados por uma esquadrilha de discos voadores?

― Pior, meu capitão, muito pior. O Tadeu se plantou dentro do banheiro e não sai, e já tem cinco na fila!

― Mas não dá para aguentar um pouco?

― É claro que não, Capitão Barbosa! Não depois daquele vatapá que a gente comeu… E o pior é que eu sou o último da fila!

― Pombas… Bom, ele não deve demorar, afinal…

― O senhor que pensa. Ele entrou com uma revista de quadrinhos…

― O que diz? Um gibi?

― Pior, Capitão, muito pior. Um mangá.

― Hein?

― Mangá, Capitão Barbosa. Aquela HQ japonesa, que a gente lê de trás para diante…

― Sim, eu conheço, aliás nem sei porque é que os brasileiros pegaram essa obsessão de mangá….

― E o senhor sabe como é…  Mangá demora para ler… Sempre tem vários capítulos por volume…

― Ah, sim… E como é que você sabe disso?

― Capitão, não dá para discutir isso agora… Será que a gente pode arrombar a porta?

― Ah, é? Se vocês danificarem a nave eu terei que pagar do meu salário, que já é tão minguado! Acho melhor vocês usarem uns sacos de lixo e jogarem no incinerador!

― Bem… Bem… Com licença – e Zé Peroba saiu atarantado, sem nem se lembrar de fazer continência.

― Com um milhão de estrelas de neutrons! – queixou-se Barbosa. – Só essas naves brasileiras são construídas com um só banheiro! Já cansei de mandar ofícios à Secretaria de Assuntos Espaciais…

― E tem mais – disse uma voz feminina adocicada, soando pelo alto-falante do teto – as espaçonaves japonesas, chinesas e norte-americanas dispõem até de quatro ou cinco banheiros!

Barbosa acionou o holograma de mulher que personificava a nave Antaprise, já que não gostava de conversar com paredes. Apareceu uma garota tipo havaiana, vestida com um sarong (obviamente ele não aprovava aqueles hologramas de naves vestindo sóbrios trajes oficiais), que acrescentou:

― Por que você mesmo não constrói o segundo banheiro? Aliás isso é uma vergonha: tinha que ter pelo menos um para homens e um para mulheres.

― Eu sei disso. É por isso que não se consegue mulheres na tripulação de uma astronave brasileira! Eta país problemático! Mas não posso bancar uma obra dessas em você. Não com o salário miserável que o governo brasileiro me paga!

― Capitão Barbosa, quero lhe avisar que estamos com um novo problema, e esse é sério mesmo. Um dos disjuntores fundiu, um meteoro atingiu o nosso giroscópio e estamos em rota de colisão com a superfície de Marte.

― Hein? O que? Por que é que você não me alertou antes?

― Bem… Eu queria ter feito… Mas o senhor estava tão ocupado com o assunto do banheiro…

― Mas que droga! (ele falou outra coisa – mas foi censurada, como nas legendas dos filmes americanos) Você já tomou alguma providência?

― É claro, Capitão. O senhor sabe que, desde que as naves se tornaram inteligências artificiais, pessoas como o senhor passaram a ser meramente decorativas. Já pedi socorro, e está vindo uma esquadrilha da Frota para nos ajudar.

― Ah, bom! É claro… Aqui tem muitas vidas humanas para preservar…

― Que vidas humanas, Capitão Barbosa? Eles não querem é que a superfície de Marte seja danificada!

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Resenha – Pathfinder, de Orson Scott Card, por Marcus Vinicius de Medeiros

O bom autor sempre consegue explorar novas facetas de temas batidos. Em Pathfinder, Orson Scott Card aborda a questão da viagem no tempo e de colonização planetária com muita originalidade e desenvoltura, o que resulta em um dos romances de ficção científica e fantasia direcionado ao público jovem mais interessantes dos últimos tempos.

Desde que li O Jogo do Exterminador, há cerca de dez anos, tenho acompanhado os livros de Card com atenção, e nunca saí decepcionado. Aqui, ele investe suas forças no garoto Rigg, que tem a habilidade de “enxergar” os caminhos percorridos por indivíduos desde o começo dos tempos. Seu melhor amigo, Umbo, por sua vez, pode manipular o fluxo de tempo, e quando os dois misturam suas habilidades, as possibilidades são ilimitadas.

Pathfinder contém duas histórias que correm em paralelo, e só vêm a convergir bem no final do romance. A principal é a de Rigg, que se inicia numa cidadezinha quando seu pai morre acidentalmente – não sem antes o incumbir de encontrar a irmã que ele nem sabia existir. A partir daí, o jovem parte com Umbo numa jornada imprevisível para a capital, que o leva a cruzar o caminho da família real deposta e traz revelações surpreendentes sobre sua identidade. No meio de tudo, o passado do mundo é reescrito várias vezes, os heróis recebem visitas de suas contrapartes do futuro e voltam eles mesmos ao passado recente para modificar algumas ações. A história secundária, narrada nas primeiras páginas de cada capítulo, é a do oficial terrestre Ram, no comando de uma nave em missão colonizadora no espaço, na qual os paradoxos também afloram.

As situações muitas vezes parecem complicadas, e os próprios protagonistas questionam o que de fato estaria acontecendo em meio aos problemas cronológicos. Fica fácil lembrar uma cena do filme A Origem na qual os personagens se perguntam no subconsciente de quem estariam em dado momento. Claro que ninguém gosta de se sentir perdido durante a leitura, e aqueles pouco acostumados à ficção científica terão maior dificuldade, mas o sense of wonder acaba falando mais alto.

Pathfinder, a exemplo de outros trabalhos de Orson Scott Card, aproveita a ambientação fantástica para explorar questões como amadurecimento, confiança e o poder da amizade. Vale dizer também que os personagens estão longe de meras novas versões de Ender e companhia, apresentando qualidades e defeitos próprios. O livro é longo, são mais de 670 páginas, mas tudo flui bem naturalmente, e a sequência será lançada em breve. Definitivamente um início promissor para a nova série de um nome da ficção científica que ainda tem muito a oferecer. Card acertou novamente.

Marcus Vinicius de Medeiros é jornalista e colaborou durante anos com os sites Omelete e Almanaque Virtual e as revistas Sci Fi News e HQ Express. Hoje escreve reviews de quadrinhos para o Universo HQ. Ele afirma que, sendo um jovem tímido, sempre se dedicou à leitura de revistas em quadrinhos e à literatura fantástica. Podemos dizer que é o famoso “nerd de carteirinha”, o que, convenhamos, é um baita dum elogio!

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