Resenha: Farei meu destino, de Miguel Carqueija, GIZ Editorial (2008)

Farei meu Destino

por Osame Kinouchi

A biblioteca do CLFC, atualmente sediada no Laboratório de Divulgação Científica e Cientometria da FFCLRP-USP, adotou recentemente uma política para doações para seu acervo. Se um autor enviar dois exemplares de algum de seus títulos, um ficará no acervo e o outro será vendido em prol da tesouraria do CLFC. Ao fazer isso, o Prof. Dr. Osame Kinouchi, mantenedor da biblioteca, se compromete a avaliar com cuidado a obra e escrever uma resenha, a ser colocada no site oficial do CLFC. Outros resenhadores do CLFC também podem ajudar nesse compromisso. Miguel Carqueija foi o primeiro autor a fazer essa doação para o CLFC.

Miguel Carqueija não necessita de apresentação, por ser autor prolífico e membro atuante do CLFC desde a década de 80. Uma das vertentes de sua obra é a literatura infanto-juvenil de fantasia e ficção-científica. Esse aspecto o distingue da grande maioria de autores do fandom, que preferem escrever para adultos ou pelo menos young adults. Essa escolha tem um grande mérito, pois contribui para a formação de novas gerações de leitores, e ao mesmo tempo cria uma enorme dificuldade: escrever para adultos é fácil, escrever para juvenis não é.

Na minha vida profissional estou acostumado a escrever pareceres sobre textos (artigos científicos) que ainda não foram publicados. Tais pareceres visam justamente ajudar os autores a melhorar seu texto e a articulação das ideias. Baseado nos pareceres, os autores reescrevem e melhoram seus escritos antes da publicação. Resenhas são diferentes. Elas operam sobre o produto final, acabado e publicado. Já não podem ajudar o autor a melhorar seu texto (a menos que pensássemos na possibilidade de se criar novas versões do mesmo E-book a partir das resenhas críticas). Sinceramente, para o livro Farei me destino de Miguel Carqueija, eu gostaria de escrever um parecer e não uma resenha, mas isso não é possível.

De novo quero parabenizar e incentivar Carqueija nesta escolha pela literatura juvenil e desafio outros autores a escrever para este público, pois perceberão que tal escrita é muito mais difícil do que parece. Isso decorre basicamente do seguinte: se os personagens são juvenis (13 a 15 anos como acontece no livro de Carqueija), os pensamentos e o vocabulário dos mesmos tem que refletir essa idade. Ou seja, um autor maduro tem que se colocar na posição de um adolescente, pensar como um adolescente, falar como um adolescente (dos dias atuais!). Se muitos autores homens tem dificuldade em retratar uma personagem feminina adulta (pelo simples fato de que mulheres e homens pensam diferente, sim), quão maior é a dificuldade de construir uma personagem na forma de uma menina de 13 anos (Diana) e suas amigas de mesma idade.

Infelizmente é isso o que acontece. Basicamente, cada capítulo é iniciado com um parágrafo sobre os pensamentos recentes dos personagens, em particular Diana. São abundantes também os diálogos entre as personagens adolescentes. Ora, o que acontece é que tais pensamentos e diálogos estão repletos de um vocabulário muito rico (e mesmo antiquado) que não é crível ser dominado por juvenis. De novo afirmo que escrever os pensamentos de adolescentes, na linguagem deles, é uma tarefa muito árdua para um adulto maduro e é compreensível os deslizes de Carqueija. Fico imaginando se o autor, como exercício de escrita, pudesse reescrever a mesma história com um outro linguajar. Uma nova edição do livro, seria possível? Tal coisa seria inédita em nosso meio, mas poderia ser muito interessante, especialmente com a facilidade de se criar novas versões em E-book.

Apenas para exemplificar o que estou dizendo, encontrei palavras na boca das adolescentes que eu mesmo tive que consultar um dicionário para entender o sentido exato. Entre as expressões que aparecem nos pensamentos de Diana estão: tripudiava, ciosamente, vil, integridade física, sismo, inusitado, pereceram, éter, intrigado, descendente, pundonor, óbices, audácia, astúcia, espevitada, irascível, tutela, dotes, algozes, gula, fatal, espicaçava, ressonavam, cogitaram, indizível, agastada, alamedas, impante, defrontar, acicatava-me, encalço, sublime.

Estas expressões foram retiradas apenas das passagens iniciais dos capítulos que refletem os pensamentos de Diana. O resto do texto está repleto de vocabulário similar. Acho que não preciso enfatizar meu ponto mas, como pai de quatro adolescentes, posso afirmar que essa faixa etária não fala e não pensa assim. Pobre de nós, escritores maduros, caso queiramos imitar sua fala.

Espero que Carqueija entenda como eu quero que esta resenha seja construtiva. Não estou “tripudiando” sobre seu esforço literário, muito pelo contrário: eu o acho válido e mesmo pioneiro. Mas, agora como parecerista, eu realmente recomendaria que, em seus próximos trabalhos para juvenis, desse redobrada atenção para essa questão da adequação do vocabulário às jovens personagens. Se isso não for feito, as histórias, por melhores que sejam os enredos, causarão estranheza ao leitor (especialmente ao jovem leitor).

A história segue num estilo mangá (acho que Carqueija reconhece a influência de Sailor Moon nesta obra) e está repleta de ação como gostariam os juvenis. Entretanto, outro ponto me causou estranheza (mas isso não é necessariamente uma falha do autor). Embora feito para o público infanto-juvenil, a história contém cenas apropriadas para um mangá para maiores de dezoito anos: estupro, tortura, assassinato, violência e morte ocorrem ao longo de todo o texto. Essa atitude não politicamente correta destoa de Sailor Moon, pelo que entendo. Nada que não ocorra em Harry Potter, imagino. Mas é como se o livro fosse a versão GTA dos mangás femininos.

Espero que Miguel entenda a boa vontade com que li seu livro e escrevo essa resenha (não, não estou me vingando de uma resenha destrutiva de um conto meu que ele publicou no Recanto das Letras tempos atrás, juro!). Que venham novos textos para o público juvenil, especialmente de ficção científica! Espero que meus comentários possam ajudar nesta questão do vocabulário dos personagens. Dada a imaginação fértil de Carqueija, tenho certeza que nos aguardam ótimas histórias com ótimos personagens. Tenho certeza.

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Uma resposta para Resenha: Farei meu destino, de Miguel Carqueija, GIZ Editorial (2008)

  1. A divergência da voz do personagem com o personagem em si tem sido algo que chama minha atenção e me causado um ímpeto de rejeição ao texto.

    Sobre esta questão, em muitas obras amadoras (gosto de garimpar leitura no Wattpad) noto que há esta divergência, se não a convergência de uma voz só para todos os personagens: os diálogos ficam parecendo o monólogo de um louco falando consigo mesmo. Não conseguimos distinguir a personalidade própria de nenhum personagem, fica parecendo que a história flutua ao redor de um único personagem com nomes diferentes.

    Conheci o trabalho de Miguel Carqueija há alguns anos, na extinta revista Dragão Brasil e o material dele está entre os meus preferidos entre os contos que eram publicados eventualmente na revista. Infelizmente ainda não tive contato com trabalhos mais recentes dele. Até vou aproveitar a deixa para procurar alguma publicação dele em e-book na Amazon.

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