Resenha: Tesouros de Curitiba e outras histórias, de Valter Cardoso, Editora Fragmentos (2016)

A biblioteca do CLFC Roberto César do Nascimento, do CLFC, atualmente sediada no Laboratório de Divulgação Científica e Cientometria da FFCLRP-USP, adotou recentemente uma política para doações para seu acervo. Se um autor enviar dois exemplares de algum de seus títulos, um ficará no acervo e o outro será vendido em prol da tesouraria do CLFC. Ao fazer isso, Osame Kinouchi, mantenedor da biblioteca, se compromete a avaliar com cuidado a obra e escrever uma resenha, a ser colocada no site oficial do CLFC. Outros resenhadores do CLFC também podem ajudar nesse compromisso, como é o caso desta resenha por Mariane Matias.

 Tesouros de Curitiba e outras histórias

Valter Cardoso – Editora Fragmentos (2016)

 Por Mariane Matias

Valter Cardoso é técnico em eletrônica pelo CEFET-PR, tecnólogo em informática e especialista em redes e sistemas distribuídos pela UFPR. Recebeu menções honrosas no concurso Servir com Arte e é organizador de eventos culturais em Curitiba. Seu livro Tesouros de Curitiba e outras histórias, publicado pela editora Fragmentos, é uma antologia de contos de ficção científica e fantasia, cheios de suspense e surpresas que deixam no leitor o desejo de ter mais.

 O livro começa com o conto homônimo ao título. Numa manhã, como todas as outras, Zulmiro acordou com o toque do despertador. Quando abre os olhos, deu-se conta de que aquele aparelho era estranho e tentou se lembrar de onde tinha vindo. Na noite anterior fora com uns amigos para um bar de nome “Xarada”, onde participara de um concurso de enigmas e ganhara o aparelho como prêmio. A frase “encontro dez estrelas” não para de piscar e logo concluiu tratar-se de outro enigma. A cada pista descoberta, uma nova surgia e assim, o misterioso aparelho guia Zulmiro em uma caça ao tesouro pelas ruas de Curitiba. O conto se passa nessa cidade, porém em uma época futura, na qual, após uma grande guerra cibernética, a internet é proibida.

 Os elementos futurísticos deixam o texto mais curioso e enigmático. O fato da trama se passar em Curitiba não atrapalha nem é problema para alguém que não conhece a cidade. Entretanto, alguém que a conheça com certeza aproveitará mais a leitura. A trama toda é bem amarrada e consistente. Os enigmas são inteligentes e criativos, tornando a leitura instigante e fluente. Os personagens não foram muito bem desenvolvidos, talvez por intenção do próprio autor para não fugir do foco da narrativa. O texto prossegue cheio de suspense e o final surpreende com aquele gosto de “quero mais”.

 O conto Refletindo trata de um espelho chamado de temporizador de três botões que grava as imagens refletidas nele. Conforme o texto caminha, o autor levanta questões existenciais de forma sutil, como o envelhecimento, imperfeição e aceitação da própria imagem, mas não traz uma leitura que prende o leitor, como vista em outros contos.

Em Bolacha recheada, Valter Cardoso trata de um tema de cunho social muito importante: a hipocrisia. Neste conto, um senhor se recusa a comprar um pacote de bolacha recheada para um catador de papel dizendo que lhe compraria um café com pão e manteiga, apesar da bolacha custar o mesmo preço. Excelente texto que reflete valores morais da nossa sociedade e o quanto um ato hipócrita pode afetar alguém.

Novamente, com o intuito de fazer o leitor pensar, o autor traz agora um assunto curioso, mas também um tanto confuso. Em Fita de Moebius, o personagem volta no tempo no dia da sua suposta morte. Após o encontro consigo mesmo, as dúvidas aparecem. Não fica claro se o personagem não morre por conta do aparecimento de seu eu futuro no passado ou se este nunca foi o dia da sua morte ou até mesmo se, enquanto continuar voltando ao passado, ele nunca morrerá. Apesar de confuso, creio que isso seja proposital, de modo a deixar o leitor inquieto.

A narração de Presas na paixão é a voz futurista do que seria hoje um radialista, falando sobre uma adaptação de um livro. Conforme o texto evolui, vai expondo elementos futuristas que vão construindo na mente do leitor essa nova sociedade, num estilo que lembra Douglas Adams. Esse conto expõe uma destripa de um ponto de vista bem diferente e de forma criativa.

No conto Meu filho, Maria acorda com seu filho a chamando, porém, quando o vê, convence-se de que apesar de idêntico, não é seu filho. O menino diz que quer ir para a casa e que sua mãe se chama Ana. Ela liga para Ana e descobre que seu filho está lá. Valter consegue manter o suspense durante todo o texto e finaliza, novamente, de modo surpreendente.

Após a morte do avô, o garoto ouve Batidas, que dá nome ao conto, insistentes na porta, porém, em todos os casos, não há ninguém atrás dela. Todo o suspense do conto prende o leitor e o deixa curioso. Porém, diferente dos demais contos, o final deixa de surpreender. O autor, optando por manter o mistério sem solução, acabou por conclui-lo sem inovar.

O conto Previsão do tempo trata de dois amigos que se encontraram no mesmo lugar, mas em tempos diferentes, de modo que um ainda estava na terça-feira, enquanto o outro, na quarta. A leitura é carregada de bom humor e mantém o ritmo divertido.

Em Há tempos é narrado um cataclismo que vem atrapalhar a rotina agitada do mundo moderno, que é criticada neste conto discretamente. Entretanto, faltou o tempero que instiga o leitor, deixa-o curioso e surpreende, que vinha dando sabor aos outros contos.

O conto Liberdade fala sobre um homem misterioso que regularmente vai ao banco, sempre depois do expediente, retirar dinheiro. Ele se apresenta mal vestido e, curioso, o gerente do banco o convida para jantar em sua casa a fim de o conhecer melhor e descobre a incrível história desse homem. O texto é cheio de suspense e levanta a questão: o que é liberdade? Para ele é a prisão, visto que lá não precisa mais fugir, esconder-se ou fingir ser alguém que não é.

No conto Jornada, o personagem tem seu trajeto mudado após escrever algumas linhas durante o caminho. Na verdade, não fica claro se este era o destino final desde o começo ou se este mudou durante a jornada. O texto começa neutro mas,à medida que caminha, vai ficando mais curioso. Entretanto, faltou o sabor de “quero mais”, novamente.

Genitura é um conto carregado de humor e ao mesmo tempo curioso. Um casal presencia a queda de um objeto luminoso do céu em uma zona rural. Desse objeto surge um humanóide que pede ajuda aos dois para encontrar uma coisa que estava na nave junto com ele antes de cair. Eles a encontram mas, antes de porem as mãos nela, são interrompidos pelo exército brasileiro que prende os três. O final é surpreendente e cheio de criatividade, sem perder o humor.

Tesouros de Curitiba e outras histórias é um livro que desperta uma curiosidade fascinante, uma ficção científica cheia de criatividade e um texto repleto de suspense e mistério, tudo na medida certa. Um ótimo livro até mesmo pra quem não é fã de ficção científica e fantasia.

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