Programa Literatura Nerd websódio #2, com resenha do livro O Hobbit de J.R.R. Tolkien, apresentado pelo jornalista e escritor Clinton Davisson, presidente do Clube dos Leitores de Ficção Científica do Brasil.
Programa Literatura Nerd websódio #2, com resenha do livro O Hobbit de J.R.R. Tolkien, apresentado pelo jornalista e escritor Clinton Davisson, presidente do Clube dos Leitores de Ficção Científica do Brasil.
O pessoal do sitelovecraft está com um projeto bem interessante para lançar uma antologia bastante completa de contos de H.P. Lovecraft.
Denílson Ricci, um dos responsáveis pelo projeto enviou um release do livro. Sem dúvida, é uma excelente oportunidade para quem sempre desejou conhecer e se aprofundar na ficção de um dos grandes mestres do horror cósmico.
CONHEÇA O LIVRO ‘O MUNDO FANTÁSTICO DE HP LOVECRAFT’
O www.sitelovecraft.com é um site que há 8 anos divulga no Brasil a vida e obra do famoso escritor americano de contos de horror H.P. Lovecraft (1890-1937).
Recomendamos a todos os amantes de ficção de horror ou simpatizantes do gênero que conheçam este sítio e seu mais novo projeto que é um livro com novas traduções da obra (hoje em domínio público), deste fantástico escritor que foi Lovecraft.
Este livro nasceu para ser um livro diferente, com o objetivo de dar ao leitor no momento de sua leitura a imersão neste mundo de fantasia e mistério que Lovecraft criou. A obra terá entre outras coisas mais de 400 páginas, uma capa muito bem elaborada, fino acabamento e papel de primeira qualidade, fotos, longa biografia do autor, contos clássicos e outros inéditos e novas traduções muito bem revisadas e notas que darão uma nova releitura, mesmo para quem já leu algum de seus escritos.
ABAIXO O SUMÁRIO DO LIVRO
Prefácio: O Início de Tudo
Introdução e Agradecimentos: A Nossa Ideia de um Livro
Biografia de H.P. Lovecraft: O Homem que Escrevia Sonhos
Contos, Fragmentos e Ensaios
O Chamado de Cthulhu
O Festival
A História do Necronomicon
A Cor Vinda do Espaço
A Cidade sem Nome
O Descendente
A Rosa da Inglaterra
Sonhos na Casa da Bruxa
Desespero
O Horror de Dunwich
Nêmesis
A Busca de Iranon
Os Gatos
O Forasteiro
O Jardim
Celephaïs
Providence
Horror em Martin´s Beach
Uma Elegia ao Dr. Franklin Chase Clark
O Inominável
A Sombra sobre Innsmouth
O Sabujo
Um Sussurro na Escuridão
O Depoimento de Randolph Carter
A Armadilha
A Música de Erich Zann
O Assombro das Trevas
Os Fungos de Yuggoth
Apêndices
Notas sobre Escrever Ficção Fantástica
Carta de HPL a Reinhard Kleiner
Carta de HPL a Robert Bloch
Carta de HPL a Robert E. Howard
Frases famosas de HP Lovecraft
No momento o livro está em sua reta final de desenvolvimento, e ele depende de pré-venda para se tornar realidade uma vez que é baseado no trabalho voluntário e não temos condições financeiras para bancar o livro e receber depois.
Nossa garantia para tal é a credibilidade de 8 anos com o www.sitelovecraft.com além de lhes passar endereço e fone pessoal para sanar quaisquer dúvidas se desejarem. Caso o projeto não desse certo (possibilidade que já não existe) deixamos bem claro que todo valor seria devolvido em conta a sua escolha.
Informações podem ser obtidas no link abaixo:
Ou pelo e-mail: de3103@yahoo.com.br
Há dois anos, eu apresentei na minha antiga faculdade, Cásper Líbero, a monografia de iniciação científica Wired Protocol 7: Um estudo sobre Serial Experiments Lain e a alucinação consensual do ciberespaço. Ela, que na verdade foi concluída em 2009, abriu-me caminhos para um gênero que, já na época, encontrava-se um tanto estagnado no mercado editorial brasileiro e internacional. Dizem que o cyberpunk está morto, porque já o vivemos agora – daí a transformação do cyber em nowpunk. E, nesse sentido, é possível observar que vários escritores que fizeram parte da criação do cyberpunk estão migrando para gêneros como a dark fantasy ou a fantasia urbana.
John Shirley e Rudy Rucker, por exemplo, fazem parte da primeira geração do cyberpunk, junto de Bruce Sterling, William Gibson, Neal Stephenson e Pat Cadigan. Ambos, em suas mais recentes obras, produziram histórias mais voltadas à fantasia que à ficção científica. Shirley, que em 2009 publicou Bleak History, tem seu livro descrito como “uma quase fusão do cyberpunk com a fantasia urbana”, enquanto Jim and the Flims (2011), de Rucker, pula de cabeça na fantasia. Em entrevista para o io9, o escritor explica que “certos tipos de ciência se tornaram um pouco monótonos e desestimulantes”: “Relatividade, mecânica quântica, biotecnologia, realidade virtual – elas estão um tanto velhas. Eu gosto da ideia de uma nova ciência que é tão exagerada e estranha que parece magia. Como você a encontra? Comece com magia, então siga o caminho contrário direto para um tipo de ciência louca do futuro que seja capaz de justificar”. Como a reportagem indica, Rucker já havia publicado em seu blog que estava “cansado de lidar com explicações para coisas estranhas em seus livros”.
Mas quem disse que fazer ficção científica é fácil? Em 2010, quando organizei o evento Science’n’Fiction na Cásper, tivemos a participação de dois físicos: João Zuffo e João Kogler, ambos profissionais do Departamento de Sistemas Eletrônicos da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. O primeiro apresentou uma série de gráficos, vídeos de robôs e outras inovações tecnológicas recentes que induziu à ideia de que a ficção científica e a ciência caminham lado a lado – inclusive, Zuffo é autor do romance de ficção científica Flagrantes da Vida no Futuro (Editora Saraiva, 2007).
Já Kogler deu seu depoimento pessoal, lembrando-se de quando era criança e como havia um encantamento por filmes e seriados, como Star Trek, os quais o teriam influenciado a se tornar o cientista que é atualmente. Tal relação binômia se dá de maneira dual, uma vez que tanto a ciência pode influenciar a ficção científica quanto o contrário. Neste caso, é só pensar nos primórdios da FC para lembramos de grandes nomes da hard sci-fi como Arthur C. Clarke e Isaac Asimov, inventor e professor de bioquímica respectivamente. O autor de 2001: A Space Odyssey (1968) ao publicar o artigo “Extra-Terrestrial Relays — Can Rocket Stations Give Worldwide Radio Coverage?” (1945) na Wireless World, revista britânica de entusiastas do rádio e da eletrônica, influenciou na criação dos satélites geoestacionários, os quais orbitam na então chamada “Órbita Clarke”. Na verdade, Clarke só popularizou um conceito já discutido em 1928 por Herman Potočnik, cientista de foguetes austro-húngaro. Isto é, a ficção científica é capaz de comunicar e interpretar ideias reservadas ao âmbito das ciências, proporcionando não apenas uma leitura leiga como uma inspiração científica.
O amolecimento da FC
Mas já que a hard sci-fi era tão apegada assim ao positivismo e ao método cartesiano, à grande preocupação em explicar tudo minuciosamente de acordo com a lógica das ciências exatas, foi nos anos 1980 que surgiram os “punks” da FC, os quais sugeriram uma versão soft da ficção científica. Acompanhando as inovações tecnológicas na área da cibernética, o sexteto de escritores iniciou o cyberpunk com ideias menos “duras”, mais preocupadas com as experiências proporcionadas por um mundo em que a tecnologia é muita e a qualidade de vida é pouca (high tech, low life, lema do cyberpunk).
Depois das distopias de George Orwell e Aldous Huxley, da Segunda Guerra Mundial, da Guerra Fria, mais a Guerra no Vietnã e tantas outras, foi natural o crescimento de uma falta de perspectiva por parte da juventude (no future, como cantava o Sex Pistols em God Save the Queen). O niilismo prosperava por toda a América, especialmente na Latina, que apelidou os anos 80 como a “década perdida” devido à estagnação econômica. Ainda assim, foi uma época de grande pesquisa na área da cibernética e de início da cibercultura, já que em 1988 houve a abertura da rede mundial de computadores, antes apenas acessível às universidades e aos militares, para interesses comerciais – mais tarde, nos anos 1990, ganhando sua versão World Wide Web (WWW). Aliás, em termos de cibercultura, estuda-se a internet até hoje conforme o termo “ciberespaço”, cunhado justamente por Gibson em suas ficções. Ou seja, o cyberpunk já nasceu dentro de um contexto tecnológico, como explica Bruce Sterling, no prefácio da antologia Mirrorshades:
Os cyberpunks talvez sejam a primeira geração a crescer não somente dentro da tradição literária da ficção científica, mas em um mundo verdadeiramente de ficção científica. Para eles, as técnicas da “FC hard” clássica – extrapolação, alfabetização tecnológica – não são ferramentas literárias, mas um auxílio para a vida cotidiana (apud FERNANDES, 2006, p.51).
Então, por que escutamos que o cyberpunk está morto, uma vez que já vivemos num mundo cyberpunk? Talvez porque alguns imaginem que o gênero tenha ficado estagnado no pensamento e estética dos anos 1980, não se atualizando para entender o mundo na época atual. Mas, seguindo essa lógica, teoricamente, a vertente já nasceu velha, uma vez que, como Gibson brinca no prefácio de Neuromancer, ele foi capaz de “prever” o ciberespaço e influenciar todo um comportamento hacker, mas não conseguiu “imaginar” o telefone celular. Isso porque em 1973, Martin Cooper, pesquisador e executivo da Motorola, já havia montado o primeiro telefone móvel analógico, além de a primeira geração (1G) de celulares ter sido lançada em 1979, no Japão. No entanto, a verdadeira utilização da telefonia móvel só aconteceu nos anos 1990, com a chegada da segunda geração (2G).
Mas essas constatações não devem ser utilizadas como uma arma contra Gibson, já que a ficção científica não tem como propósito prever o futuro, mas criar situações fictícias mais ou menos prováveis de acordo com uma lógica científica mais ou menos estrita. Reforçando, o cyberpunk ou a soft sci-fi não tinha (ou não tem) tanto comprometimento com as ciências duras ou exatas como a hard sci-fi. O cyberpunk trouxe muito mais um comportamento e um pontapé inicial para quebrar a porcelana intocável das obras da geração dos anos 30. No fanzine Cheap Truth, lançado em 1982 por Bruce Sterling, Lewis Shiner escreveu, sob o pseudônimo de Sue Denim, sobre a hard sci-fi como uma ficção científica moralista, “do tipo que a mamãe e o papai gostam e permitem” (apud FERNANDES, 2006, p.52), acrescentando que:
Talvez as pessoas que votam nos [prêmios] Nebula ainda tenham medo de suas mamães e papais; talvez eles próprios ainda não sejam mamães e papais. Isto explicaria por que eles não votam em livros com ideias de verdade, sexo de verdade e linguagem de verdade (apud FERNANDES, 2006, p.52).
E, realmente, uma das cenas de sexo mais interessantes que já li foi justamente num livro de cyberpunk, especificamente o Count Zero, de William Gibson, traduzido por Carlos Angelo e publicado no Brasil pela editora Aleph:
E, aos poucos, sem palavras, ela lhe ensinou um novo tipo de desejo. Estava acostumado a ser servido, a ser atendido anonimamente por profissionais experientes. Agora, na caverna branca, ele se ajoelhava nos ladrilhos. Baixava a cabeça, lambendo-a, o sal do Pacífico misturado à umidade da mulher, o frescor das coxas envolvendo seu rosto. Com as mãos apoiando os quadris dela, ele a segurava, erguia-a como um cálice, seus lábios pressionando com firmeza, enquanto a língua buscava o local exato, o ponto, a frequência que a faria chegar lá. Em seguida, com um grande sorriso, ele subiria nela, a penetraria, e acharia seu próprio caminho até lá (GIBSON, 2008, p.18)
Isso tudo para depois descobrir que a mulher com quem o personagem se relacionava foi contratada para espioná-lo. Com o perdão do spoiler, mas é necessário destacar como o cyberpunk não só quebra com o moralismo e com o mundinho perfeito da antiga FC trazendo tais reviravoltas, como também tem um estilo totalmente cru. Sem muitas firulas na linguagem, o cyberpunk constrói um mundo noir e que acha sua própria elegância na sarjeta: prostitutas, junkies, ciborgues periféricos, paraísos tropicais permeados por tecnologia e comércio ilegal, femme fatale, “samurais de asfalto”, armadilhas e perseguições, estereótipos azedados pelo niilismo etc.
Além dos livros
O cyberpunk não criou apenas uma literatura, mas uma postura, uma subcultura. Em AMARAL (2006), descobrimos a ligação da subcultura gótica com a cyberpunk, hacker, clubber e outras. Percebemos, com a leitura do livro da professora da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, que é como André Lemos, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), aponta em Cibercultura. Tecnologia e vida social na cultura contemporânea (2002):
A cultura cyberpunk não é somente uma corrente da Ficção Científica, mas um fato sociológico irrefutável, uma mistura de esoterismo, programação de computador, pirataria e Ficção Científica, influenciada pela contracultura americana e pelos humores dos anos 80. Cultura hiper-tecnológica, ela está presente em vários países, com formas diferentes de expressão. A atitude cyberpunk é, acima de tudo, um comportamento irreverente e criativo frente às novas tecnologias digitais (apud AMARAL, 2006, p.39).
E também como Timothy Leary, neurocientista e futurista, diz em The cyberpunk: the individual as reality pilot (1988):
Cyberpunks são os inventores, escritores inovadores, artistas tecnofronteiriços, diretores de filmes de risco, compositores de mutação icônica, artistas expressionistas, livre-cientistas tecno-criativos, visionários dos computadores, empreendedores inovadores do show-bizz, hackers elegantes, videomagos dos efeitos especiais, pilotos de testes neurológicos, exploradores de mídia (apud AMARAL, 2006, p.38).
Isto é, o cyberpunk inundou muitas áreas da cultura, artes, além da ciência. Um exemplo está na “ciborguização do rock”, termo que Adriana Amaral usa em seu livro Visões Perigosas: uma arque-genealogia do cyberpunk, para explicar a música industrial, que é uma categoria da música eletrônica surgida no Reino Unido no fim dos anos 1970. Mais recentemente, com o desenvolvimento desse gênero e aproximação da sonoridade com ritmos como o techno, trance e metal, muitas bandas começaram a demonstrar uma real aproximação com o cyberpunk. Seja com títulos de álbuns (como Neuromance, do Dope Stars Inc) ou com nome de músicas (como CYB3R D35TRUCT1ON, do T3RR0R 3RR0R), há ainda bandas que inserem samples de filmes de ficção científica, várias vezes pertencentes ao gênero cyberpunk – como vocês podem ouvir neste podcast. Em COLLINS (2002), há a seguinte tabela de amostras de som que a pesquisadora reconheceu de acordo com uma amostragem de canções de grupos de música industrial:
Nessa mesma obra, aliás, a autora insere uma citação de Bruce Sterling, que diz:
Conforme a conexão [entre a música industrial] com o cyberpunk continua, é realmente muito óbvio saber como isso tudo começou. A música industrial está tratando da tese do “homem assimilado na máquina” desde seu início. A SRL, Industrial Records, Portion Control e tantos outros sabem quantos outros músicos e artistas performáticos incorporaram [o cyberpunk] às suas criações (apud COLLINS, 2002, p.95).
Ano passado, por exemplo, o Partido Pirata alemão passou a utilizar como “hino” de sua causa a música Lies Irae, da banda italiana Dope Stars Inc. Ela, que segue uma premissa bastante fundamentada no cyberpunk, disponibilizou o último álbum, Ultrawired, gratuitamente na internet. A canção, que brinca com o título de uma das partes do Réquiem (Dies Irae), diz:
“We are living just to surf, cut, copy, paste
We are connected through our cyberspace
and every chatroom is the mother base
We know you’re quick to hide and cover up the facts
But We discover all of your hidden tracks
We’re changing all the rules of the game!
Ooooh,
we’re gonna hack their base
we’re the truth to face
peer-to-peer cyberspace
(…)
we are a generation of terabytes
we have no leaders, just our crazy hives
We’re gonna win this fight in any way
you want to be a part of the new era
And we no longer listen to your lies
We don’t believe in anything you say!” (Song Meanings)
E essa canção foi lançada bem próxima à época em que o Wikileaks estourou. Ou seja, faz sentido dizer que já vivemos o cyberpunk, mas Sterling, Gibson, Shirley, Rucker, Stephenson e Cadigan também, em 1980. Não é desculpa. Hackers já existiam naquele tempo (o nome cyberpunk veio de um conto de Bruce Bethke, que teve seu computador invadido) e continuam firmes até hoje, seja adquirindo informações confidenciais de governos, seja agindo por uma causa, como os Anonymous, ou agindo como crackers, ripando jogos e softwares para serem disponibilizados gratuitamente na rede, compartilhando arquivos e “quebrando as pernas” da indústria fonográfica. É igual e é diferente. Mas quantos estão aproveitando essa onda para criar?
A resistência
A trilogia Millenium (2008-2009), escrita pelo sueco Stieg Larsson, apesar de não ser uma obra cyberpunk, trouxe como protagonista uma hacker que ajuda na investigação de um jornalista. Os filmes Terminator Salvation (2009), Surrogates (2009), Repo Men (2010) e Sleep Dealer (2008) trabalharam com diferentes noções de realidade virtual. O anime Ergo Proxy (2006) aborda um futuro pós-apocalíptico com robôs e inteligências artificiais, enquanto o game Deus ex: Human Revolution (2011) foi um prequel da série que discutiu os limites da humanidade quando detentora de uma alta tecnologia. Já os seriados Dollhouse (2009-2010) e Caprica (2011) levaram à TV diferentes versões do cyberpunk, sendo que o último abordou muito profunda e interessantemente a questão da realidade virtual e do pós-humanismo, da possibilidade de transferirmos nossa consciência para uma máquina. Nos quadrinhos, Transmetropolitan (1997-2002) é o que se destaca, principalmente ganhando o título de pós-cyberpunk – que é um rótulo com o qual eu não concordo, mas que não vem ao caso agora.
Enfim, se me perguntassem o que eu acho das considerações de Rucker ao io9, eu diria que ele está sendo preguiçoso (risos). É claro que para escrever uma boa ficção científica cyberpunk é preciso certo conhecimento científico e/ou pesquisa, mas nada que necessite um título em matemática, física ou bioquímica. Agora, se o caso é a falta de interesse do mercado editorial ou dos leitores, deixo em aberto essa questão. Até porque continuamos vendo resquícios, como os mencionados no parágrafo anterior, assim como em nosso próprio solo, com autores como Roberto de Sousa Causo, que “milita” na causa desde os anos 1990, junto de Fábio Fernandes (Os Dias da Peste, 2009), Richard Diegues (Cyber Brasiliana, 2010), Carlos Orsi (Guerra Justa, 2010), Mario Kuperman (Labirinto Digital, 2005), Luis Bras (Paraíso Líquido, 2010), além da antologia Cyberpunk: Histórias de um Futuro Extraordinário publicada pela Tarja Editorial em 2010 e do Duplo Cyberpunk (2010), com os contos de Roberto de Sousa Causo e Bruce Sterling.
Por isso, não se rendam às fumacinhas encantadoras do Steampunk ou às maravilhosas histórias da fantasia: o cyberpunk foi nos anos 80/90 e o cyberpunk é agora!
Referências
ANDERS, Charlie Jane. Why do so many former cyberpunk authors now write dark fantasy? In: io9. Disponível em: <http://io9.com/5795217/why-do-so-many-former-cyberpunk-authors-now-write-dark-fantasy>
AMARAL, Adriana. Visões Perigosas: Uma Arque-Genealogia do Cyberpunk. Porto Alegre: Editora Sulina, 2006
COLLINS, Karen E. “The Future is Happening Already”: Industrial Music, Dystopia, and the Aesthetic of the Machine. Ph.D. Thesis. Liverpool: University of Liverpool, 2002
______. Dead Channel Surfing: the commonalities between cyberpunk literature and industrial music. Popular Music (2005) Volume 24/2. Cambridge University Press, pp. 165-178
FERNANDES, Fábio. A construção do imaginário cyber. William Gibson, criador da cibercultura. Editora Anhembi Morumbi, 2006
GIBSON, William. Count Zero. Tradução: Carlos Angelo. São Paulo: Editora Aleph, 2008
STERLING, Bruce; CAUSO, Roberto de Sousa. Duplo Cyberpunk: O Consertador de Bicicletas e Vale-Tudo. São Paulo: Devir livraria, 2010
Lidia Zuin é jornalista e mestranda em Comunicação e Semiótica. Autora de contos publicados pelas editoras Draco (Imaginários vl. 3, Meu Amor é um Anjo, Space Opera II) e Estronho (Steampink), pesquisadora em comunicação e cultura, entusiasta cyberpunk e autora dos blogs Fiercekrieg e Kunst ist Krieg.
Cliquem no link abaixo para assistir ao primeiro episódio da série Literatura Nerd, produzida por Clinton Davisson, escritor, jornalista e atual Presidente do CLFC. O primeiro episódio comenta o livro Space Opera, coletânea organizada por Hugo Vera e Larissa Caruso.
― Temos um problema sério, Capitão Barbosa – disse o imediato Zé Peroba.
― Não me traga problemas, traga soluções – respondeu Barbosa, enquanto traçava a sua feijoada mineira.
― Mas Capitão, o caso é urgente!
― O que pode ser tão urgente assim? Estamos sendo atacados por uma esquadrilha de discos voadores?
― Pior, meu capitão, muito pior. O Tadeu se plantou dentro do banheiro e não sai, e já tem cinco na fila!
― Mas não dá para aguentar um pouco?
― É claro que não, Capitão Barbosa! Não depois daquele vatapá que a gente comeu… E o pior é que eu sou o último da fila!
― Pombas… Bom, ele não deve demorar, afinal…
― O senhor que pensa. Ele entrou com uma revista de quadrinhos…
― O que diz? Um gibi?
― Pior, Capitão, muito pior. Um mangá.
― Hein?
― Mangá, Capitão Barbosa. Aquela HQ japonesa, que a gente lê de trás para diante…
― Sim, eu conheço, aliás nem sei porque é que os brasileiros pegaram essa obsessão de mangá….
― E o senhor sabe como é… Mangá demora para ler… Sempre tem vários capítulos por volume…
― Ah, sim… E como é que você sabe disso?
― Capitão, não dá para discutir isso agora… Será que a gente pode arrombar a porta?
― Ah, é? Se vocês danificarem a nave eu terei que pagar do meu salário, que já é tão minguado! Acho melhor vocês usarem uns sacos de lixo e jogarem no incinerador!
― Bem… Bem… Com licença – e Zé Peroba saiu atarantado, sem nem se lembrar de fazer continência.
― Com um milhão de estrelas de neutrons! – queixou-se Barbosa. – Só essas naves brasileiras são construídas com um só banheiro! Já cansei de mandar ofícios à Secretaria de Assuntos Espaciais…
― E tem mais – disse uma voz feminina adocicada, soando pelo alto-falante do teto – as espaçonaves japonesas, chinesas e norte-americanas dispõem até de quatro ou cinco banheiros!
Barbosa acionou o holograma de mulher que personificava a nave Antaprise, já que não gostava de conversar com paredes. Apareceu uma garota tipo havaiana, vestida com um sarong (obviamente ele não aprovava aqueles hologramas de naves vestindo sóbrios trajes oficiais), que acrescentou:
― Por que você mesmo não constrói o segundo banheiro? Aliás isso é uma vergonha: tinha que ter pelo menos um para homens e um para mulheres.
― Eu sei disso. É por isso que não se consegue mulheres na tripulação de uma astronave brasileira! Eta país problemático! Mas não posso bancar uma obra dessas em você. Não com o salário miserável que o governo brasileiro me paga!
― Capitão Barbosa, quero lhe avisar que estamos com um novo problema, e esse é sério mesmo. Um dos disjuntores fundiu, um meteoro atingiu o nosso giroscópio e estamos em rota de colisão com a superfície de Marte.
― Hein? O que? Por que é que você não me alertou antes?
― Bem… Eu queria ter feito… Mas o senhor estava tão ocupado com o assunto do banheiro…
― Mas que droga! (ele falou outra coisa – mas foi censurada, como nas legendas dos filmes americanos) Você já tomou alguma providência?
― É claro, Capitão. O senhor sabe que, desde que as naves se tornaram inteligências artificiais, pessoas como o senhor passaram a ser meramente decorativas. Já pedi socorro, e está vindo uma esquadrilha da Frota para nos ajudar.
― Ah, bom! É claro… Aqui tem muitas vidas humanas para preservar…
― Que vidas humanas, Capitão Barbosa? Eles não querem é que a superfície de Marte seja danificada!
O bom autor sempre consegue explorar novas facetas de temas batidos. Em Pathfinder, Orson Scott Card aborda a questão da viagem no tempo e de colonização planetária com muita originalidade e desenvoltura, o que resulta em um dos romances de ficção científica e fantasia direcionado ao público jovem mais interessantes dos últimos tempos.
Desde que li O Jogo do Exterminador, há cerca de dez anos, tenho acompanhado os livros de Card com atenção, e nunca saí decepcionado. Aqui, ele investe suas forças no garoto Rigg, que tem a habilidade de “enxergar” os caminhos percorridos por indivíduos desde o começo dos tempos. Seu melhor amigo, Umbo, por sua vez, pode manipular o fluxo de tempo, e quando os dois misturam suas habilidades, as possibilidades são ilimitadas.
Pathfinder contém duas histórias que correm em paralelo, e só vêm a convergir bem no final do romance. A principal é a de Rigg, que se inicia numa cidadezinha quando seu pai morre acidentalmente – não sem antes o incumbir de encontrar a irmã que ele nem sabia existir. A partir daí, o jovem parte com Umbo numa jornada imprevisível para a capital, que o leva a cruzar o caminho da família real deposta e traz revelações surpreendentes sobre sua identidade. No meio de tudo, o passado do mundo é reescrito várias vezes, os heróis recebem visitas de suas contrapartes do futuro e voltam eles mesmos ao passado recente para modificar algumas ações. A história secundária, narrada nas primeiras páginas de cada capítulo, é a do oficial terrestre Ram, no comando de uma nave em missão colonizadora no espaço, na qual os paradoxos também afloram.
As situações muitas vezes parecem complicadas, e os próprios protagonistas questionam o que de fato estaria acontecendo em meio aos problemas cronológicos. Fica fácil lembrar uma cena do filme A Origem na qual os personagens se perguntam no subconsciente de quem estariam em dado momento. Claro que ninguém gosta de se sentir perdido durante a leitura, e aqueles pouco acostumados à ficção científica terão maior dificuldade, mas o sense of wonder acaba falando mais alto.
Pathfinder, a exemplo de outros trabalhos de Orson Scott Card, aproveita a ambientação fantástica para explorar questões como amadurecimento, confiança e o poder da amizade. Vale dizer também que os personagens estão longe de meras novas versões de Ender e companhia, apresentando qualidades e defeitos próprios. O livro é longo, são mais de 670 páginas, mas tudo flui bem naturalmente, e a sequência será lançada em breve. Definitivamente um início promissor para a nova série de um nome da ficção científica que ainda tem muito a oferecer. Card acertou novamente.
Marcus Vinicius de Medeiros é jornalista e colaborou durante anos com os sites Omelete e Almanaque Virtual e as revistas Sci Fi News e HQ Express. Hoje escreve reviews de quadrinhos para o Universo HQ. Ele afirma que, sendo um jovem tímido, sempre se dedicou à leitura de revistas em quadrinhos e à literatura fantástica. Podemos dizer que é o famoso “nerd de carteirinha”, o que, convenhamos, é um baita dum elogio!
Desde os tempos de José de Anchieta, no século XV, as lendas e mitologias do Brasil vem despertando curiosidade e interesse. Seres como o Curupira, o Saci, o Boi-Tatá, o Capelobo, a Cobra Grande e muitos outros parecem ter inspirações das mais diversas.
Embora o trabalho de Monteiro Lobato em sua série “O Sítio do Pica-Pau Amarelo” tenha contribuído para preservar e divulgar essa mitologia brasileira,a exploração desses mitos por outros autores e gêneros, como o terror, ainda é tímida no Brasil, se compararmos ao grande volume de histórias que americanos, europeus e asiáticos fazem de suas próprias lendas e mitologias.
O potencial dos seres fantásticos brasileiros é inegável para gerar obras de qualidade e apelo popular e as experiências recentes de autores como Roberto Causo, André Vianco e Christopher Kastensmidt tem conseguido reconhecimento de público e crítica inclusive fora do Brasil.
O preconceito no passado por obras que adotaram essa proposta é perfeitamente compreensível dentro de uma lógica de mercado pouco explorado. Vamos lembrar que há apenas 20 anos o cinema nacional era considerado reduto de Trapalhões e pornochanchada.
Assim, partindo do pressuposto que a função de um Clube de Leitores é abrir espaço para inovações literárias e formar novos leitores, estamos abrindo inscrições para a Coletânea Brasil Fantástico em parceria com a Editora Draco.
A comissão organizadora será formada por Clinton Davisson, Hugo Vera, Daniel Borba e Romeu Martins.
Os interessados em se inscrever devem mandar seus contos para coletaneabrasilfantastico@gmail.com com cópia de segurança para fafia7@gmail.com .
A submissão deve ser mandada somente em versão eletrônica, formato rich textfile (.RTF).
Os participantes devem se inscrever com pseudônimo para manter a imparcialidade do julgamento.
Nossa deadline é 31 de março de 2012, uma vez que o objetivo primário é lançar a coletânea no Fantasticon 2012, no início do segundo semestre do ano que vem.
Confirmaremos a recepção de cada trabalho submetido. Em caso de dúvida, não hesite em nos contatar.
Fixamos os limites das submissões entre 4.000 e 10.000 palavras. Isto não quer dizer, em absoluto, que submissões fora deste intervalo serão sumariamente rejeitadas. Se o trabalho submetido possuir qualidade literária e se enquadrar na temática proposta, essa qualidade pesará muito em nossa apreciação, ainda que o texto seja menor ou maior do que o limite proposto. No entanto, cumpre esclarecer de antemão que olharemos com mais simpatia trabalhos dentro do intervalo citado.
Os contos terão que se passar no Brasil em qualquer época ou talvez em alguma colônia espacial habitada por brasileiros, ou mesmo em algum lugar que tenha uma referência mínima de nossa pátria amada (Portugal é bem aceitável); terá que conter algum elemento ou elementos da mitologia nacional e, claro, algum elemento de fantasia e/ou, ficção científica e/ou terror.
Mitologias que não são de origem nacional, mas tiveram repercussão notável no Brasil como A Loira do Banheiro, o Chupa-Cabras ou a Cuca, serão considerados.
Se julgar necessário discutir determinada trama ou certa linha de enredo conosco, sinta-se à vontade.
Clinton Davisson – Presidente do Clube de Leitores de Ficção Científica
Erick Sama – Editor da Editora Draco
Conheci Tolkien na primeira metade da década de 80 graças ao trailer de O Senhor dos Anéis de Ralph Bakshi, aquele desenho animado esquisito, carregado de clima sombrio. Demorou um ano para arrumar o vídeo mesmo, mas o trailer já me fazia tremer de excitação com aquele universo sinistro e rico. Anos mais tarde já conhecera, também através de desenho, o universo de Nárnia, quando a Rede Globo passou, num domingo, o desenho O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupas, feito pelo mesmo Bill Melendez que trouxera a turma do Charlie Brown. Eram universos vivos, pulsantes, tão reais quanto a minha vida pacata em Volta Redonda. Dava para ver que a família do Senhor Castor possuía uma história e que Gollum realmente tinha um passado de sofrimento e tormento. Bem diferente dos desenhos que via na TV na época. O Homem-Pássaro, por exemplo, certamente vivia sentado naquela sala, único cômodo de seu quartel general e não tirava aquela máscara nem para ir ao banheiro. Tomar banho então, impossível. Aliás, o cara não devia nem comer alguma coisa para viver, só ficava lá, esperando um vilão para enfrentar.
Mais tarde veio o desenho Caverna do Dragão, talvez a maior das injustiças da mídia mundial pois, cancelado nos EUA, é um marco cultural no Brasil, sendo amplamente conhecido por pessoas de todas as idades (eu sei porque perguntei para jovens nas escolas de hoje e a popularidade continua soberana) mesmo após 25 anos do cancelamento.
Embora chupasse elementos da mitologia de Tolkien, Caverna do Dragão é muito mais um plágio descarado da obra de C.S. Lewis. Acho estranho que as pessoas se assustem quando eu digo isso. Mas está na cara: jovens encontram uma passagem para outro mundo, recebem armas mágicas e são perseguidas pelo bruxo(a)ditador (a) local, auxiliados por uma entidade (Aslam/ Mestre dos Magos) que parece saber de tudo, mas não conta por pura sacanagem.
Todos estes desenhos precederam a literatura no meu caso. Fui ler Tolkien em 1985. Na época, era difícil encontrar livros do sul-africano. Dependia de uma única livraria em Volta Redonda inteira, a Veredas(que existe até hoje). Não havia aquela coisa de pedir pela internet (não havia nem internet, bom deixar claro para a geração de hoje). A Sociedade do Anel foi fácil, agora As Duas Torres foi épico, só achei edição de português lusitano. O que deixou a saga ainda mais com cara de medieval para mim. O Retorno do Rei apareceu um ano depois em “brasileiro”. C.S. Lewis então, fui ler em 2004, quando anunciaram o filme de “O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupas”.
Como tudo que é feito por seres humanos, a obra de Tolkien não está livre de defeitos. Aquela inocência dos personagens e o discurso fascista de tudo que é belo é bom, são, em minha humilde opinião, perdoáveis e, cá para nós, até desejáveis nessa época em que tudo tem que ser politicamente correto. O que me incomoda pessoalmente sempre foram aqueles capítulos intermináveis narrando montanhas ao longe de manhã, montanhas ao longe à tarde, montanhas ao longe à noite. Por isso pulei de alegria quando, no cinema, tudo aquilo virou um travelling com música alta e um fade. Outro problema corrigido no cinema foi a falta de mulheres ativas na história. Não, não sou daqueles que reclama do relacionamento esquisito de Frodo e Sam, acho até que isso vai depor a favor de Tolkien no futuro, quando, segundo Irvine Welsh, todo mundo vai ser gay. Acho até esquisita a obsessão de algumas pessoas em relação a isso, pois, em Moby Dick, por exemplo, o capitão Ahab tem um menininho ao seu dispor em sua cabine e o próprio Ismael, personagem principal, casa com o índio Queequeg literalmente logo no inicio do livro. Mesmo quando a homossexualidade está sendo amplamente debatida, focam em Sam e Frodo e esquecem de Ismael e Queequeg. Resumo da história, a sexualidade de Frodo e Sam realmente não me preocupa porque não me interessa.
Influência ativa na atualidade
Mesmo 39 anos após sua morte, John Ronald Reuel Tolkien ainda é influência presente nas obras de fantasia no mundo todo. Trata-se daqueles casos em que a influência é tão poderosa a ponto de virar padrão. Mais ainda, a busca por quebrar, superar, ou simplesmente mudar esse padrão virou uma espécie de Santo Graal da literatura fantástica.
Atualmente o marketing de George R. R. Martin no Brasil flerta com a possibilidade do advento de um “Tolkien para adultos” já que há uma maturidade maior na história das Crônicas de Gelo e Fogo. Personagens mais modernos e menos infantis. Se isso se traduz em um autor melhor ou em uma história melhor, é algo muito subjetivo. Mas o fato é que difícil falar de Martin, sem falar de Tolkien. E para falar de Tolkien, não precisamos mencionar ninguém.
Temos também dos ingleses Neil Gailman e China Miéville venerados, tanto pela crítica, quando pelo mercado editorial, por conseguirem romper em parte a fórmula de anões, magos, elfos e cavaleiros. O local de mineração continua sendo lendas antigas europeias (no caso de Miéville há elementos de outras mitologias), mas o resultado é bem criativo e ousado.
Imitadores ruins e o mercado
Há algo intrigante em relação ao mercado mundial literário, que passa por uma fase revolucionária que começou com Harry Potter e continuou com Crepúsculo. Semelhante ao que aconteceu em 1977 com Star Wars onde as crianças deixaram de ser um tempero e passaram a ser o prato principal da indústria cinematográfica, fazer livros para adolescentes virou o foco do mercado editorial.
É bom deixar claro que, quando digo “imitadores”, estou querendo dizer, na verdade, autores que são influenciados de alguma forma por Tolkien. Dentre eles, temos J.K. Rowling. A qualidade de Harry Potter é debatida por alguns críticos, pode haver um furo aqui e ali, mas o fato é que o bruxinho não pode ser taxado de mal escrito impunemente. Ao contrário, chegou-se a insinuar que Rowling usava ghost-writers para “terceirizar” as histórias. Um crítico chegou a dizer: “Ninguém faz livros de tanta qualidade em tão pouco tempo”. Pessoalmente, acho Rowling genial. Sabe construir personagens adoráveis com os quais nos identificamos. E ainda teve a sorte de ser transportada para o cinema por cineastas competentes.
Embora não possamos considerar Stephanie Meyer como uma imitadora de Tolkien, ela é uma das locomotivas que puxam essa revolução literária. Crepúsculo já é um livro ruim de defender, com uma autora pertencente a uma religião que defende abertamente que os negros são descendentes de Cain, e gerou filmes de gosto duvidoso, mas ainda há algo carismático na história meio Romeu e Julieta, meio A Bela e a fera. Sua temática machista e moralista encontrou terreno fértil nos EUA de Bush Jr e vem fazendo uma legião de fãs no Brasil aonde a longevidade do governo petista vem fazendo crescer uma “consciência reacionária anti-petista” com um discurso de “retorno da tradição, religião e família” que flerta com o nazismo . Apesar disso tudo, Crepúsculo ainda é legal de assistir (confesso que só li o primeiro livro e não gostei).
O problema maior começa com a falta de qualidade das obras que vem na cola destas locomotivas de olho nesse novo público infanto-juvenil. Porque grande parte dos adolescentes não tem muito critério para ler. O que era uma opção de Tolkien por um clima mais inocente e infantil, virou uma regra para os imitadores.
A busca por uma nova linguagem ou mesmo por novos cenários e novas temáticas, deu lugar para o “mais do mesmo”. Com uma história copiada de Star Wars e um cenário copiado de Tolkien, o Christopher Paolini virou pesadelo de críticos, mas fez a alegria do mercado e virou síntese de imitadores ruins de Tolkien.
O que acontece no Brasil que me deixa preocupado não é a quantidade de imitadores de Tolkien, mas a falta de criatividade, de bagagem literária e personalidade desses imitadores. Como o mercado está próspero, o que acontece é uma profusão de livros com temáticas de idade média europeia sem se dar ao trabalho de fazer uma pesquisa maior sobre o assunto.
O natural seria se voltar para a cultura nacional, mas aí entra o preconceito do brasileiro classe média pela cultura do próprio país. Confesso, por exemplo, que embora seja fanático por futebol, não morro de amores por samba, e Carnaval para mim seja época de viajar e ficar bem longe… do Carnaval. Tudo bem, questão de gosto, mas vejo certos exageros. “O problema dos autores brasileiros é que insistem em querer nos empurrar essas coisas nacionais que não nos interessam”, bradava um imbecil numa comunidade do Orkut anos atrás, como se falar de coisas nacionais fosse como tentar vender uma droga para seu filho.
Claro, durante muitos anos a única referência das lendas nacionais estava atrelada ao – excelente – trabalho de Monteiro Lobato e suas adaptações televisivas para o mundo infantil. O atual guru do Youtube, PC Siqueira, afirmou: “Não vou me assustar com uma história de Saci. Quem vai se assustar com um bichinho que dá nó em rabo de cavalo? Prefiro Zumbis que comem gente e tem a ver com o fim do mundo. Desculpa!”.
Mas vale citar que houve tempos, 13 anos atrás para ser mais preciso, que filmes de heróis da Marvel eram tidos como inadaptáveis para o cinema. Só Batman e Super-homem tinham conseguido espaço nas telas mundiais, enquanto apenas o Hulk havia conseguido algum sucesso e mesmo assim em uma série de TV. A adaptação do Capitão América para a TV não passou de um piloto insosso na Sessão da Tarde.
Com novas tecnologias digitais, os heróis da Marvel tomaram de assalto o cinema de forma devastadora. O que estou querendo dizer é que, se existem barreiras para que se façam boas histórias envolvendo mitologia nacional, elas são tão consistentes quanto a roupa nova do imperador.
André Vianco, atual golden boy da literatura fantástica no Brasil, já utilizou curupiras bombados em seus livros e vendeu muito. Sem falar que trouxe os vampiros para o Brasil de maneira contundente e não houve problema nenhum nisso. Sem pensar muito, o premiado Max Mallman, criou uma lenda própria de imortais que praticam turismo histórico pelo mundo desde a invenção da escrita e acabam vivendo uma aventura no Rio de Janeiro em seu livro Zigurate.
O escritor Roberto Causo também desenvolveu um trabalho semelhante com o ótimo A Sombra dos Homens que não apenas tive a oportunidade de ler, como também presenciei uma avalanche de críticas cujo poder de fogo se concentrava não na qualidade do livro, mas no fato de usar a mitologia nacional como matéria prima para fantasia. Novamente é como se Causo estivesse querendo empurrar goela abaixo do leitor a “malévola droga da cultura nacional”.
Mas o golpe de misericórdia veio com o humilhante tapa na cara dado pelo norte-americano, Christopher Kastensmidt, que, morando em Porto Alegre, usou lendas nacionais, aquelas que não tinham graça para nós, e criou The Elephant and Macaw Banner, uma série de contos que estão ganhando reconhecimento internacional em revistas respeitadas, graças ao óbvio: o folclore brasileiro é riquíssimo para quem tem ambições literárias que vão além de criar uma aventura de RPG.
É importante enfatizar que não acho ruim ou errado um autor brasileiro escrever sobre elfos e anões e outros temas europeus. Primeiro porque nossas raízes históricas são tão europeias quanto africanas e indígenas. Não sou obrigado a escolher apenas uma. Depois porque criatividade precisa de liberdade. O problema é o preconceito, o ódio que alguns leitores e autores parecem sentir pelas temáticas nacionais.
Enfim, ser fã de Tolkien, C.S. Lewis e simpatizantes é quase uma consequência do amor direto pela literatura fantástica, mas na hora de produzir alguma coisa, o escritor nacional deveria pensar em que tipo de reverência pretende render aos seus mestres. Imagine se os Beatles se contentassem em imitar Buddy Holly e não tentassem inventar mais nada?
Alguns tentam “inovar” de forma esquisita. Pegam os mesmos temas de Tolkien e dizem que “beberam das mesmas fontes”. Afinal, não foi Tolkien que inventou os elfos e os orcs. Aí saem coisas esquisitas como elfos peludos que comem banana, orcs louros, vampiros que brilham no sol… Sei lá, não era melhor inventar algo novo ou talvez algo realmente criativo, ou pegar o velho tema e colocar uma boa história pelo menos?
Talvez esse artigo tenha um pouco de dor de cotovelo, afinal, pertenço muito mais ao seguimento de ficção científica, aquele tema que todos adoram ver no cinema, mas pouca gente lê. Mas não consigo ver vantagem em tentar clonar o texto de Tolkien 39 anos após sua morte.
Mas o que defendo é que ousadia e bagagem literária são marcas do bom escritor e vejo pouca coisa disso na fantasia brasileira atualmente. Se a ideia é homenagear mestre Tolkien, acho que o mestre merecia um pouco mais em seu aniversário de 120 anos, concorda?
Clinton Davisson é jornalista, escritor, presidente do Clube de Leitores de Ficção Científica do Brasil e autor da saga Hegemonia onde usa descaradamente fadas taradas, sereias feministas (que subjugam os machos da espécie) e dragões com problemas existenciais, além de uma raça de gambás maconheiros. Por isso todo o texto acima pode ser uma grande hipocrisia… Ou não!
Não era mais que um pontinho lá no horizonte. Vinha em avanço gradual. Cocei o bigode, soltei um bocejo e rearrumei as pernas, descruzando-as e voltando a cruzá-las noutra posição.
Minhas botas estavam sujas de terra. Um rasgo longitudinal numa delas deixava à mostra um pedaço da meia. Olhei para o céu e perscrutei as nuvens e através delas… Como se pudesse. Uma brisa suave soprava. Diante de mim o vale se descortinava em meio a ravinas e pouca vegetação. O pó na língua formava torrões que eu cuspia em pequenos intervalos.
Pensar em minha mãe foi simultâneo. Era obrigatório pensar nela. Todos os dias e noites, sob o sol, sob a chuva ou sob o fogo inimigo. Era uma figura renitente que, teimosa, não me abandonava. Mesmo que a tivesse abandonado há tempos.
Minha mãe… Senhora imponente em sua suposta majestade. Isso. Toda mãe se sente majestade. Seu reino… O lar, seus súditos… Os filhos. Era quase impossível não sentir o travo amargo na garganta. Quando fora? Quando? Quando foi que lhe gritei na cara para que me deixasse seguir minha própria vida? Quando foi que, em meio a impropérios – que hoje lamento não terem sido mais virulentos -, enfiei-lhe o dedo na cara e lhe disse, em alto e bom som, que eu era mais e melhor do que ela podia supor?
É… Quando?
Tem também o quando ela reunia familiares e amigos para me fazer uma festa de aniversário surpresa… Mas esses eventos eu preferia esquecer. Ocorriam sazonalmente, uma vez ao ano, discretamente camuflados entre um dia e outro.
Balancei a cabeça e estiquei o olhar mais uma vez. O pontinho ao longe já se tornara distinguível. Era uma pessoa – claro que sim, sabia desde o início –, homem ou mulher, caminhava de maneira cautelosa. Procurava abrigo entre as rochas. Carregava petrechos que o faziam avançar com dificuldade. O que um idiota como esse estaria fazendo ali, sozinho? Não era dos nossos. Posicionei o fuzil fazendo mira. A distância era ainda grande para arriscar.
Lá vinha a minha mãe de novo. O olhar arguto me atravessando a carne como uma faca afiada. Passinhos sempre curtos, mas fortes. Cada passada forte como se quisesse fazer o mundo entender que estava ali, poderosa como nunca.
E estava.
Sempre acima de nós. Mesmo sendo de estatura média, mesmo tendo que erguer o olhar para nos encarar. Eu e meu irmão, que já não era, mas um dia foi. Não a sete palmos de fundura, que estaria muito bom. Mas espalhado em fragmentos ensanguentados. Um obus dentro da trincheira. Sem tempo para fugir. Nem para pensar. Nem para um “ai”.
Era ela a responsável… A maldita.
Claro que sim. Quem mais poderia? Ela iniciou a guerra, nos alistou, reuniu o inimigo, indicou a trincheira, fabricou o obus, deu as coordenadas, disparou e gargalhou a morte do próprio filho… Maldita.
Descruzei as pernas e bati com as botas no chão, fazendo levantar uma pequena nuvem de poeira. Coloquei-me de joelhos e projetei o corpo para frente, procurando o defunto que caminhava no vale.
Lá estava ele. Era homem. Talvez uns vinte anos de idade. Três a menos que eu. Aparelhado. Uma mochila larga às costas. Um fuzil pendurado no ombro, olhar perdido no caminho.
O destino o aguardava nas alturas. Sentei sobre os calcanhares, abri o cantil e bebi um gole de água. E a maldita voltou a ocupar minhas lembranças. Como no dia em que enfiou o cabo do guarda-chuva na garganta do senhor Clinton. Queria me defender, a idiota. Acabou por me colocar em maus lençóis. Ou quando teimou que Susan não era mulher para mim. E não era mesmo, mas ela jamais poderia ter se metido nisso. Ou quando disse a Joe, meu irmão despedaçado, que jamais permitiria que ele se alistasse no exército. Que era o caçula, o desprotegido, o incauto, aquele que deveria ser um modelo dentro de casa. Que não deveria seguir meus maus exemplos.
Claro que ele disse a ela pra não se meter.
E da vez quando papai, completamente bêbado, começou a quebrar os móveis da sala. Mamãe, de certa forma, o ajudou. Pegou um vaso e o colocou pra dormir em meio aos cacos. Fora horrível, de uma agressividade desnecessária.
Eu e Jorge assistimos a tudo, encolhidos num canto. Cabelos desgrenhados, marcas pelo corpo, sangue escapando dos lábios. Atônitos após a surra que levamos dele, atônitos pela reação de mamãe. Atônitos por termos sido tão veementemente defendidos sem que pudéssemos demonstrar nossa força.
Tudo bem… Éramos crianças. Mas crianças com opinião própria. Tínhamos braços e pernas. Tínhamos cérebro. Tínhamos vontade.
“Vão morrer, os dois!… Vão morrer!”, gritou mamãe quando fomos chamados ao front. Os perdigotos espirraram em nossas faces. O rosto dela, sempre tão forte, tão vigoroso, desmoronava diante de nós. Vimos o veneno escorrer.
Ou teria sido medo?
Nunca tivemos chances de voltar a vê-la. Ela morreu naquele mesmo verão. Falência múltipla dos órgãos. Metástase. Câncer de pâncreas não detectado até que fosse tarde demais. Morreu antes de Jorge. Morreu depois de papai.
Jamais abri as suas cartas. Para quê? Para ter que enfrentar uma sabedoria sempre indiscutível? Para ter que engolir sem chances de resposta as súplicas, as recomendações?
Respirei fundo e elevei os pensamentos a Joe. Onde quer que estivesse. Talvez no inferno. Claro que mamãe estaria lá, se assim fosse. Enfiando o cabo do guarda-chuva na garganta do diabo e colocando Joe em ainda piores lençóis.
Aprumei o corpo. Recolhi duas lágrimas teimosas e posicionei o fuzil. Mamãe… Ainda tínhamos assuntos a acertar. Conversas a tecer. Posições a discutir. Projetei o corpo para frente e procurei o alvo, arma engatilhada.
Lá estava ele.
Agachado próximo a um arbusto. Ajoelhado. A arma empunhada, o cano erguido. Quase um reflexo meu. Um espelho bizarro posicionado no vale, refletindo mais que a minha pessoa… Quase a minha alma.
Afrouxei o aperto no gatilho e sorri com alguma ansiedade. Pensei em Jorge e em mamãe. Dei uma risadinha nervosa. Vamos aproveitar a chance, certo? É isso aí. Vamos aproveitar…
O estampido ecoou pelo vale, desaparecendo ao longe.
Mantive a posição. Arma nas mãos, cano apontado para baixo, dedo trêmulo no gatilho. Nos olhos a opacidade. Antes de cair do penhasco ainda consegui concatenar um breve pensamento. Alguma coisa a ver com mamãe.
Algo indistinto, como um vago sorriso de boas vindas.
Sinopse: Numa realidade alternativa, no ano de 1993, um grupo de soldados brasileiros na selva amazônica enfrenta não só os guerrilheiros do outro lado. Jânio Quadros havia invadido as Guianas nos anos 60 e entrou numa guerra de desgaste. A luta perdera o sentido.
Roberto Causo brinca com a história alternativa, pinçando um evento dentro de uma luta imaginária, mas plausível. O megalomaníaco Jânio Quadros decide invadir as Guianas e acaba mudando todo o perfil geopolítico da América Latina.
O autor mostra esta realidade a partir do depoimento de um personagem que tem o mesmo nome, como se fosse seu espelho. De uma forma inteligente sente-se na história que o Causo alternativo tenta dialogar com o Causo desta realidade, especulando sobre a vida de seu “duplo”.
Quem conhece o Causo dificilmente o imaginaria segurando uma arma e atirando em alguém. Mas será que, se estes “fatos” realmente se configurassem, a história não seria outra? Do mesmo modo, o Brasil, tradicionalmente não belicoso, entraria numa guerra de desgaste contra seus vizinhos?
E o principal questionamento do livro: onde está a maior violência? Numa guerra na selva ou o dia a dia violento que vivemos? Realmente soa irônico quando o duplo do Causo diz invejar o mundo “pacífico” de nossa realidade.
A narração centra-se em alguém que está no meio do conflito e tem uma visão fragmentária do que está acontecendo, em vez de se optar por um narrador onisciente que poderia nos mostrar todo o contexto histórico e político. Isso dá uma dimensão mais humana ao relato, pois sentimos um pouco da realidade vivida pelo personagem narrador.
Todavia sentimos que história poderia ser ampliada e abarcar todo o contexto alternativo. Isso talvez ainda possa ser feito, se Causo optar por criar mais contos, noveletas ou romances no mesmo universo, aprofundando-se nesta outra realidade.
Um livro para nos fazer pensar.
Selva Brasil
Autor: Roberto de Sousa (ou seria Souza?) Causo
Editora: Draco
Ano: 2010
112 páginas
(resenha originalmente publicada em 31/05/2011 em http://blogdopainerd.blogspot.com)